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Archive for July, 2008

“A caracterização”, por Juliana Reis

Posted by ac on 1st July 2008

Dando prosseguimento à apresentação em capítulos resumidos da edição em português de La Dramaturgie, de Yves Lavandier: “A caracterização: “o príncipe encantado de um casal dois em um”".

 

Eis um exemplo de personagem questionável e coroado de sucesso: Jack (Leonardo Di Caprio) em Titanic. Penso que o filme lhe deve parte de seu charme. Jack é o que chamamos um Salvador com S maiúsculo. Senão, vejamos: no espaço de alguns dias, ele salva Rose (Kate Winslet) do suicídio, do enfado, da frigidez, do casamento, da aristocracia e, uma segunda vez, da morte! E, como se não bastasse, faz tudo isso sacrificando sua própria vida. Muito esperto da parte de James Cameron. Ao criar o personagem de um superSalvador, quase tão generoso quanto Jesus Cristo, o roteirista de Titanic nos propõe o príncipe encantado que muitos homens sonhariam ser e que muitas mulheres sonhariam encontrar. O problema é que, na realidade, os príncipes encantados não existem. Titanic propõe uma visão do amor destinada a crianças de até quatro anos: uma mulher jovem sofre e, em vez de ir à luta e encontrar nela mesma seu salvador interior (com s minúsculo), ela topa com o belo Leonardo com seu espírito livre, seu senso de sacrifício e sua filosofia de monge budista de 75 anos. Enfim, as mulheres que sonharam com ‘um Jack para chamar de seu’ ao ver o filme correm o risco, a meu ver, de se frustrar ainda mais.

Além disso, notaremos que Titanic descreve a primeira fase de uma história de amor, a fase da fusão – em que tudo vai bem, o outro só tem qualidades, em que estamos apaixonados, e as emoções são fortes e deliciosas. É uma pena que o cinema, como, aliás, o teatro ou a literatura, não se interesse muito pelas fases seguintes de uma relação sentimental. A quase-totalidade das histórias de amor descrevem o momento que precede ou que sucede imediatamente o encontro amoroso. O prosseguimento da relação, como nos contos de fada, pressupõe que o casal viverá unido e feliz para todo o sempre. Sabemos todos que, na vida, isso não acontece dessa maneira. “A coisa mais reconfortante que podemos mostrar às crianças”, dizia Françoise Dolto, “é uma vida de casal que resista ao tempo”. E se a coisa mais reconfortante que pudéssemos mostrar aos espectadores fosse uma vida de casal resistindo ao tempo?

Podemos encontrar várias explicações para essa tremenda lacuna, por exemplo, o fato de que a parte “lua-de-mel” de uma relação amorosa é a mais rica em emoções e a mais espetacular, bem como o de que muitos autores se projetam no que escrevem e estão mais habituados a se apaixonar do que a viver um romance em sua duração. Entre as exceções, obras que se dedicaram a abordar a vida de casal pós-fase de fusão, podemos citar Viagem à Itália – prova, aliás, de que uma vida de casal que resiste ao tempo não é necessariamente isenta de conflito. Cabe citar ainda Quem tem medo de Virginia Woolf?, Cenas da vida conjugal, Uma mulher sob influência, A chama que não se apaga ou Nós não envelheceremos juntos.

CARACTERIZAÇÕES – ALGUNS EXEMPLOS ANTOLÓGICOS

Se existe domínio em que o gosto pessoal do espectador entra em consideração, esse domínio é bem o da caracterização. Por isso a escolha dos personagens antológicos citados abaixo é impregnada de minhas preferências e subjetividade, e não deve ser considerada definitiva. Caberá a cada leitor ajustar as listas abaixo de acordo com seus paladares.

O que torna um personagem cativante?

Os personagens que salvam o planeta com seus pênis e um canivete me aborrecem profundamente. Prefiro o capitão Haddock a Tintin, Obélix a Astérix, Falstaff ao príncipe Henry (Henrique IV), Cyrano de Bergerac a Christian, Max (Don Adams em Agente 86) a 007 (James Bond). Sem a falta de jeito de Clark Kent, o Super-homem seria insuportável. Idem para o Homem-Aranha sem a timidez de Peter Parker. É na simpatia que sentem por Perrin-Pignon (Jacques Brel, Pierre Richard ou Jacques Villeret) que Milan (Lino Ventura), Campana (Gérard Depardieu) ou Brochant (Thierry Lhermitte) se tornam mais humanos. Metaforicamente, aliás, muitos filmes revelam como um bruto se humaniza à medida que seu lado frágil se libera.

De tanto freqüentar o repertório, noto alguns elementos constantes nos personagens que me tocam. Apóio-me nestes exemplos :

- Antígona, em Antígona,

- Édipo, em Édipo rei,

- Falstaff, em Henrique IV,

- Otelo, em Otelo,

- Lear, em Rei Lear,

- Arnolfe, em Escola de mulheres,

- Nora, em Casa de boneca,

- Cyrano, em Cyrano de Bergerac,

- Carlitos (Charles Chaplin),

- Laurel e Hardy (O gordo e o magro),

- Mãe Coragem, em Mãe Coragem e seus filhos,

- Galileu, em A vida de Galileu,

- George Bailey (James Stewart), em A vida é bela,

- Cody Jarrett (James Cagney), em Fúria sanguinária,

- Will Kane (Gary Cooper), em Matar ou morrer,

- Annie Sullivan, em Milagre de Annie Sullivan,

- C.C. Baxter (Jack Lemmon), em Se o meu apartamento falasse,

- Felix (Tony Randall), em Um estranho casal,

- César (Yves Montand), em César e Rosalie,

- Dersou Ouzala (Maksim Munzuk), em Dersou Ouzala,

- McMurphy (Jack Nicholson), em Um estranho no ninho,

- Franck Poupart (Patrick Dewaere), em Série noire,

- Pupkin (Robert de Niro), em O rei da comédia,

- Charlotte (Charlotte Gainsbourg), em A descarada,

- Ahmad (Babak Ahmadpoor), em Onde é a casa do meu amigo?,

- Alice (Mia Farrow), em Alice,

- Phil Connors (Bill Murray), em Feitiço do tempo,

- Erin Brokovitch (Julia Roberts), em Erin Brockovich,

- Carla (Emmanuelle Devos), em Em meus lábios,

Eis os elementos que constituem o patrimônio comum desses personagens:

1. Eles não são perfeitos, longe disso. Não são super-heróis musculosos e engenhosos. Eles têm alguma falha, incapacidades, complexos – são, de alguma maneira, entravados. Édipo é cego e impetuoso (além de amaldiçoado). Nora é ingênua. Cyrano é feio e covarde no amor. Mãe Coragem, gananciosa. Felix Unger, maníaco. César, ciumento. Charlotte, invejosa. Peter, incompetente. Carlitos, um mendigo. Ahmad é uma criança (em um mundo de adultos), Mulan, uma mulher (na China da Idade Média), Jarrett, Pupkin e McMurphy estão no limite do psicótico, o mesmo valendo para Franck Poupart, belo exemplo de criança de quatro anos em corpo adulto.

2. Eles não são nem brancos, nem pretos. E isso não significa que estejam repletos de contradições em todos os domínios, simultaneamente covardes e corajosos, otimistas e pessimistas, avarentos e generosos. Eles podem ser integrais em cada domínio. Simplesmente, apesar de seus defeitos, eles também têm qualidades. E vice-versa. Antígona, Édipo, Felix, George Bailey e Will Kane são íntegros. Fisicamente, Cyrano é corajoso. César é extremamente sedutor. Mulan é astuciosa. Falstaff adora a vida. Laurel e Hardy têm a candura das crianças.

3. Mais especificamente, eles costumam ter uma qualidade extraordinária, uma pequena competência, qualquer coisa que possa tornar-se útil. Carlitos sabe fazer tudo em um minuto, padre, boxeador, equilibrista. Cyrano escreve poemas maravilhosos. George Bailey tem muitos amigos. Dersou sabe sobreviver em meio aos rigores da tundra. Carla sabe ler os lábios. Laurel e Hardy seriam certamente menos cativantes se não nos divertissem. Outras vezes, não têm grande coisa deles, a não ser a enorme perseverança – o que remete à característica de número 5. Sim, mas que qualidade, a perseverança, seja na vida ou na dramaturgia!

4. Eles vivem conflitos. Um personagem sem problemas em sua vida é enfadonho em sua ficção. Lear foi despojado de seu reino, de sua corte, de suas filhas, de sua razão e finalmente de sua vida. Otelo está cego pelo ciúme. Coragem perde seus filhos. Will Kane foi abandonado por todos. McMurphy engole frustração sobre frustração. Laurel e Hardy, derrota sobre derrota. A vida atropelou Alice. Phil Connors está aprisionado em um mesmo dia sinistro. O conflito pode tomar a forma de culpabilidade. É o que torna George (Montgomery Clift) encantador em Um lugar ao sol em oposição a Chris (Jonathan Rhys Meyers) em Match point. Os dois irão longe para escalar socialmente, mas o segundo não tem mais consciência moral do que um réptil.

5. Eles se viram, não esperam que ninguém os venha salvar, como Rose (Kate Winslet) em Titanic. Eles assumem o volante do destino. São combatentes, cada um a seu modo. Édipo investiga até o fim. Pupkin seqüestra uma vedete (Jerry Lewis) para se tornar ator. Arnolfe faz tudo para separar Agnès e Horácio. Galileu resiste, obstina-se, contorna o obstáculo. Erin Brockovich revira céu e terra contra Goliath. McMurphy inventa um jogo de beisebol imaginário. Carla, a coitada, a secretária saco de pancada, ingênua, medrosa e frustrada sexualmente, se recusa a submeter-se. Chega a dar sinal, em algumas circunstâncias, de uma personalidade forte. Começa por escolher um marginal, Paul (Vincent Cassel), para ajudá-la. Como se, inconscientemente, ela soubesse que um tipo como Paul é bom para chacoalhar sua vida. Quando um de seus colegas de escritório tenta trapaceá-la no trabalho, ela pede que Paul roube um dossiê. E não hesita em pressioná-lo: “Você me deve algo”. Resumindo, Carla, como os demais personagens aqui mencionados, é tudo menos uma heroína de melodrama – e isso apesar de possuir as características próprias.

6. Ocasionalmente, eles fazem o jogo do “Sim, mas…”. Sim, tenho desejo de mudar, de atingir meu objetivo, mas tenho medo. Medo do vazio, do que eu não conheço, medo de largar minhas muletas, de não ser bem-sucedido. Como diz Hamlet em seu famoso monólogo (Hamlet), nós suportamos os males conhecidos, para não buscarmos refúgio em outros males ignorados. Sem chegar ao extremo de Hamlet, que tripudia sobre o tempo de duração, sentimos todos esses personagens, num momento ou noutro, no limite da renúncia. O “Sim, mas…” mais colossal do repertório é o de Édipo. Tirésias lhe oferece a solução, e ele poderia ter atingido seu objetivo desde o começo da peça. Sim, mas Édipo tem medo (justificado) da verdade. Apesar de reencontrar sua florista adorada, Carlitos prefere partir. C.C. Baxter vai-se embebedar em um bar quando toma conhecimento de que a mulher que ama está comprometida. Phil Connors tenta suicidar-se para escapar da repetição interminável de um dia de sua vida.

Esta última característica, no entanto, deve ser manipulada com precaução. Já vimos que o protagonista com o qual nos identificamos quer algo. Quando Cyrano hesita, ao ter conseguido seduzir Roxane (fim do Ato IV), muitos deixam de considerá-lo fascinante.

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“O Roteirista e a Feijoada”, por René Belmonte

Posted by ac on 1st July 2008

Uma das discussões mais frequentes e sem fim no meio cinematográfico e seus derivados é a resposta à questão: quem é o autor do filme, o diretor ou o roteirista? O diretor defende que é ele quem dá o conjunto da obra, quem transforma as páginas na obra viva, em movimento. O roteirista contrapõe dizendo que tudo começa com ele, mesmo que seja uma idéia encomendada, mesmo que a própria trama já exista, é ele quem primeiro visualiza a história a ser contada, são deles as cenas, os personagens, a maneira como cada um fala, a disposição dos acontecimentos, enfim, o que diferencia um filme de literatura ou qualquer outra forma narrativa. Para complicar, há quem defenda ainda que o verdadeiro autor é o montador, afinal – e quem já acompanhou a edição de um filme sabe a extensão disso – é na ilha de edição que a história efetivamente toma forma, às vezes de forma radicalmente diferente do que havia sido concebido pelo roteirista e pelo diretor. Por bem ou por mal, é essa a versão que vale, a que fica. Uma boa montagem revoluciona o trabalho dos outros dois, apura ou mesmo modifica por completo uma atuação, a disposição das cenas, o ritmo do filme em si. Há ainda quem defenda que todos são autores – afinal, o cinema é uma arte colaborativa, depende do resultado do trabalho não apenas do roteirista, do diretor, do montador, mas também do fotógrafo, do músico, elenco… todos aqueles chamados de “acima da linha”, essas pessoas que desempenham um papel mais do que técnico, mas efetivamente pessoal. E por que não o continuísta, o técnico de som, o assistente de direção, o eletricista? Não desempenham, também, papéis essenciais na confecção da obra? Afinal, de quem é o filme?

E o que isso tem a ver com a feijoada do título?

A feijoada – e o porco – são uma pequena tentativa de colocar em perspectiva o papel do roteirista na realização de um filme. É bastante simples: o filme é a feijoada. O roteiro é o porco.

Como todos já devem ter tido a oportunidade de testemunhar, um porco e uma feijoada são duas coisas bem diferentes. Assim como o roteiro e o filme: o segundo é uma obra audiovisual, tridimensional, dinâmica. Um roteiro é, antes de mais nada, uma peça literária. Serve apenas para ser lido, e por poucas pessoas: o diretor, o elenco, os produtores, enfim, toda a equipe que realiza um filme.

Ainda assim, o porco é o principal ingrediente da feijoada. Sem porco, não há feijoada. Novamente, o mesmo se aplica em cinema: sem um roteiro, não há filme. Pode-se substituir um ingrediente ou outro, pode-se abrir mão de um tempero ou de algum complemento, mas experimente tirar o porco da receita. Os engraçadinhos podem dizer que é possível fazer uma feijoada vegetariana, mas cá entre nós, não é a mesma coisa. É outro prato, apenas com o mesmo nome.

O que não faz com que o filme seja a tradução do roteiro – basta olhar novamente para o porco, e ver que ele não faz uma feijoada sozinho.

Se o roteirista é quem fornece o porco, então qual é o papel do diretor? A resposta é óbvia: ele é o cozinheiro. É quem prepara o prato, junta os ingredientes, determina o tempo no fogo. Os outros ingredientes são fornecidos pelo restante da equipe. Quem já entrou numa cozinha de restaurante sabe a quantidade de pessoas envolvidas na confecção de um prato. Aliás, já que entramos na cozinha, o papel do produtor fica claro aqui: ele é o dono do restaurante.

Assim como ninguém vai ao restaurante comer um porco vivo, ninguém vai ao cinema assistir a um roteiro – num mundo ideal, este já não existe, está completamente mesclado à obra cinematográfica. Assim como ninguém vai assistir a uma direção – o trabalho do diretor, num mundo ainda mais ideal, é invisível, apenas o resultado de seu trabalho pode ser apreciado. As engrenagens não aparecem – apenas os ponteiros se movendo, para usar uma outra imagem. O mesmo vale para todas as demais atribuições. O olho treinado, evidentemente, é capaz de perceber cada um dos elementos de um filme, ou pelo menos aqueles que lhe interessam.  Mas grandes filmes têm a capacidade de te fazer esquecer disso, pelo menos durante aqueles noventa e poucos minutos. Justamente porque o todo é maior do que a soma de suas partes.

As pessoas, na verdade, vão ao cinema ver uma boa história – e um roteiro é apenas parte disso. O roteiro, como já foi dito, é uma obra literária, feita para ser lida por algumas poucas pessoas , mas quanto é isso diante do público médio de um filme? - Como tal, possui uma função importantíssima (além de, evidentemente, definir quem são os personagens, suas motivações, apresentar a história, desenvolver os conflitos, estabelecer os percalços, até a resolução e o final quase sempre feliz): é ele quem motiva as pessoas a querer, também, contar aquela história. É um bom roteiro que motiva elenco e equipe a dar o melhor de si, a acreditar no resultado. Se sua leitura é enfadonha, se a trama não anda, se os diálogos são duros, se a resolução é pífia, tudo isso influi negativamente, e as pessoas encaram apenas como mais um trabalho. Mas quando há algo mais ali – bom, o roteiro é a porta de entrada. É a primeira e mais duradoura impressão. Quando é bom, todos dão o melhor de si. Pode-se argumentar que essa motivação é a função do diretor – mas o diretor é o primeiro a ler, o primeiro a ser motivado.

Se o porco não for de boa qualidade, se estiver doente, se estiver muito magro, a feijoada não sairá boa. Poderá até enganar, mas não ficará boa. Independente do talento do cozinheiro. Por outro lado, não importa o quanto o porco seja apetitoso, nas mãos de um cozinheiro ruim, o resultado será desastroso.

A verdade é que tudo passa pelas mãos do cozinheiro, é ele quem define como será preparado, é ele quem dará seu toque pessoal – desde que de acordo com o que querem os donos do restaurante, que podem e devem supervisionar e determinar o que será preparado – mas devem ter o bom senso de não acrescentarem um “pouquinho a mais de sal”. A feijoada é responsabilidade do cozinheiro, de fato. Mas ainda assim ele depende do porco. E, desse, ninguém entende melhor do que seus criadores.

Talvez não seja a situação mais atraente para quem gostaria de oferecer o porco diretamente para os clientes. Talvez os criadores não gostem da maneira como o chef faz o corte do porco (sim; o porco, além de tudo, é cortado, muitas partes não são aproveitadas, inclusive partes que podem ser essenciais, na opinião dos criadores, para que a feijoada fique boa). Mas vale sempre um alento: É preciso do porco pra fazer feijoada. Mas, caso não goste de feijoada… ou dessa feijoada… sempre dá pra grelhar umas costelinhas.

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“A coisa mais difícil do mundo”, por Adriana Falcão

Posted by ac on 1st July 2008

Um dos grandes problemas que tenho carregado nos últimos anos é preencher ficha de hotel.

Sei de cor e salteado meu nome, sobrenome, data de nascimento, endereço, CPF. Mas quando chega o item “profissão”, logo vem a agonia. Escritora? Ninguém vai acreditar nisso. Escritora é a Clarice Lispector. Roteirista? Aí quem não acredita sou eu.

Apesar de já ter colaborado em vários roteiros para cinema e televisão, não consigo afirmar que sou uma roteirista sem me sentir meio impostora.

Escrevo diálogos, gosto de trabalhar na construção de personagens, posso dar uma ou outra idéia para a estrutura. Mas escrever um longa metragem do começo ao fim: argumento, sinopse, escaleta, tratamento, e - o mais importante - com qualidade, é a coisa mais difícil que já tentei fazer.

Desnecessário dizer que jamais consegui realizar a proeza.

Talvez eu seja excessivamente autocrítica, exigente demais, ou talvez não tenha mesmo vocação para a coisa.

O fato é que sempre que começo qualquer trabalho tenho a pretensão de chegar ao melhor resultado possível. E quando este trabalho é um roteiro para cinema invariavelmente concluo que eu não sou a melhor pessoa possível para chegar a um resultado que me agrade.

Já li vários livros sobre o assunto, já acompanhei o desenvolvimento de alguns roteiros (colaborei com alguns deles), já assisti a excelentes filmes.

Na minha hora de fazer, duvido que seja capaz de me embrenhar na dificuldade sozinha e só me atrevo se tiver um bom parceiro.

Quando escrevo diálogos para uma cena pré-concebida, sinto que enriqueci a função dos personagens na trama, consegui mover a história, não desperdicei palavras, procurei trazer algo de surpreendente ou interessante para a cena, e, em geral, não me envergonho do meu trabalho.

O grande problema está na etapa anterior a esta. Por mais que eu saiba que construir uma escaleta não é apenas ordenar os fatos da história, mas, principalmente, criar cenas atraentes para contar os fatos na ordem que melhor servir à forma, é aí que eu travo.

Não sou a pessoa mais sem criatividade do mundo, conheço razoavelmente o terreno, sei o que estou buscando. Posso até conseguir construir uma escaleta mais ou menos. Sinto, porém, infelizmente, que por mais que estude e pratique, nunca terei a idéia genial que gostaria de ter. Ou pelo menos uma quantidade suficiente de boas idéias que tornem o meu roteiro merecedor da pequena fortuna que custa produzir um filme.

Algumas pessoas estranham o fato de que alguém que admita ter tamanha dificuldade em construir um roteiro, ouse aceitar o desafio de escrever contos ou romances.

Estranho ou não, este é o meu caso.

Não considero nem um pouco fácil me aventurar pela literatura. Muito pelo contrário. Mas penso que sou capaz de enfrentar essa dificuldade. Além disso, sinto um enorme prazer quando passo horas buscando uma idéia de história, o perfil de um personagem, o tom da narrativa, a palavra exata, a frase, a sonoridade, o ritmo, a forma.

Penso que o fator “falta de complexo de culpa” me ajuda muito a escrever textos literários. É que neste caso, o problema é comigo, com o tempo e o entusiasmo que estou apostando naquilo, com as idéias e com as palavras. Não envolve terceiros, orçamentos, patrocínios. E se o resultado não me satisfizer, é só deletar tudo e tentar outra vez.

Gostaria muito de ter a vocação que o cinema exige. Um dos meus maiores sonhos é ser, um dia, uma roteirista de verdade. Enquanto esse dia não chega, só me resta conviver com a minha fiel insegurança, a minha inaptidão para desvendar o segredo da magia, e aquela mesma dúvida de sempre na hora de preencher ficha de hotel.

 

Adriana Falcão

 

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