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Archive for March, 2008

“Como a idéia virou filme”, por Luiz Bolognesi

Posted by ac on 31st March 2008

  

A idéia do filme Chega de Saudade nasceu no final da tarde de uma quarta-feira quando Laís e eu fomos ao Clube Piratininga tomar uma cervejinha, ver os casais dançarem e ouvir a banda Tabajara tocando ao vivo seus naipes de metal.

Havia um delicioso mistério naquele lugar.

 

Homens e mulheres com roupas coloridas, na sua grande maioria entre cinqüenta e setenta anos, dançavam, flertavam e papeavam como adolescentes. O contraste entre a idéia de finitude e a vontade de viver pulsava em cada corpo. E diante do eterno conflito entre eros e tanatos, aqueles corpos moviam-se com elegância e sabedoria ao som dos mais variados ritmos, afirmando uma opção maravilhosamente sublimada pela arte. Claramente, a beleza desse lugar não está em volumes siliconados, narizinhos arrebitados, nem na beleza efêmera da juventude. Pulsa na sabedoria dos corpos, na postura das colunas, na graça dos movimentos de pernas e braços. Sorrisos e gargalhadas pipocam em todo canto. Contudo, conforme a noite vai avançando, novos contornos da existência vão se revelando, nota-se uma pequena melancolia aqui, uma situação ridícula ali, uma maldade sendo feita acolá.

O salão de baile é uma manifestação exuberante de humanidade.

 

Se levarmos em consideração a afirmação de Camus de que o suicídio é a única questão filosófica verdadeira, os bailes nos oferecem muitos elementos de reflexão entre uma dança e outra. Até chegarmos à conclusão de que todas as respostas estão na própria dança, muitas indagações e contradições passam na nossa frente junto com o garçom equilibrando garrafas em sua bandeja. Uma das coisas mais libertadoras que se percebe nos bailes é a diversidade de sapatos, vestidos, opiniões e pontos de vista.

Há o ponto de vista da esposa, da amante, do viúvo, do filho, do pai, de quem quer namorar, quem só quer dançar, de quem usa longo e quem usa sainha rodada com pouco mais de um palmo.

O que é impressionante é que tudo isso podemos sentir nos primeiros quinze minutos.

E por mais que a nossa atitude seja de permanecer isolado, como um frio e distante observador da vida, sem nos comprometermos com ela, acabamos levados de roldão para o cerne dos acontecimentos. Basta que um senhor esbelto, que baila maravilhosamente pelo salão, visivelmente disputado pelas damas, aproxime-se e peça licença para dançar com a dama que está em sua companhia, para que a imparcialidade se extinga instantaneamente. Ainda mais se a dama que lhe acompanha sorri para aquele “velho” em três minutos de dança mais do que sorriu para você nos três últimos dias. Melhor ir ao banheiro, melhor não pensar. Eis que no caminho, duas senhoras que podiam ser suas tias, olham dentro dos seus olhos com a sensualidade de monalisas, desafiadoras e instigantes, no alto de seus decotes surpreendentemente atraentes, ainda que sexagenários. Uau, quanta coisa em quinze minutos.

Eu e Laís sempre achamos que a coisa mais importante para se fazer um filme é a vontade de expressar alguma coisa que é tão forte, que se não realizarmos a expressão dessa vontade, melhor seria não fazer mais nada.

Assim, a partir daquele fim de tarde em que a cidade fervilhava na hora do rush e nós descobríamos um novo mundo dentro dos salões, começamos a trabalhar a idéia de um filme. Doze anos se passaram entre essa tarde e a noite em que o Chega de Saudade foi projetado pela primeira vez no Festival de Brasília. E se tem alguma coisa que ganhou com essa passagem de tempo, foi o roteiro. Um bom roteiro deve envelhecer na gaveta.

 

*

 

Costumo dizer que um roteiro se escreve com os ouvidos. Nunca me esqueço de uma palestra do Marçal Aquino onde ele contou que gosta de andar por botecos e ruas ouvindo conversas e seguindo pessoas, e que, depois, diálogos e personagens dos seus livros e roteiros nascem dessas andanças. Sigo esse método. 

Além de bisbilhotar, ler também faz parte do método de escrever com os ouvidos. Devoro tudo que encontro com temas que tangenciam o assunto do trabalho. No caso de Chega de Saudade, encontrei o sentimento central numa idéia que Simone de Beauvoir escreveu no livro A Velhice. Diz ela: a velhice é particularmente difícil de assumir, porque sempre a consideramos uma espécie estranha: será que me tornei, então, uma outra, enquanto permaneço eu mesma?

Ela continua: em mim, é o outro que é idoso, isto é, aquele que eu sou para os outros: e esse outro sou eu. O que ela está dizendo, em filosofês de primeira, é que nós sempre nos sentimos os mesmo jovens, são os outros que nos apontam a velhice e exigem que usemos a máscara de velhos.

Isso me lembra aquela situação típica por que passamos quando encontramos um antigo amigo do ginásio: nossa como ele está gordo, careca e velho, pensamos, acreditando que continuamos iguais. Claro, ficamos anos sem vê-lo e isso torna óbvio as marcas do tempo, enquanto com a nossa imagem fomos nos acostumando em doses homeopáticas de espelho diário.

A Simone fala isso de modo bem mais bonito: Nenhuma impressão sinestésica nos revela as involuções da senescência; a velhice aparece mais claramente para os outros, do que para o próprio sujeito. Mais para frente ela completa: Se, aos vinte anos, nos fizessem olhar num espelho o rosto que teremos ou que temos aos sessenta anos, comparando-o ao dos vinte, cairíamos para trás e teríamos medo dessa figura; mas é dia após dia que avançamos; estamos hoje como ontem, e amanhã como hoje, assim avançamos sem sentir. Aí chega outro e lhe atira a velhice na cara. Dói, diz Simone.

Ela relata que certa vez uma amiga de sessenta anos lhe contou que atraiu um homem por sua silhueta magra e esbelta, mas quando ele viu seu rosto, apertou o passo, afastando-se rapidamente. Não é uma sensação das mais agradáveis por que passa uma mulher na vida. Simone conta dela mesma: Eu estremeci, aos 50 anos, quando uma estudante americana me relatou a reação de uma colega: Mas então, Simone de Beauvoir é uma velha! Toda uma tradição carregou essa palavra de um sentido pejorativo - ela soa como insulto.

Aí está do que queria tratar Chega de Saudade. A questão que se colocava era como eu poderia mergulhar águas profundas da imensidão feminina, sendo apenas um menino. Sou obrigado a confessar que Adélia Prado ajudou muito. Escrevia com Adélia sempre por perto. Um dia ela me dizia: Jesus tem um par de nádegas, noutro: Os casamentos são tristes porque externam, á vista de testemunhas, a mais funda ânsia de perenidade. Teve um dia que ela me saiu com um tão desconcertante quanto surpreendente depoimento, ainda mais para uma católica temente a Deus: De tal ordem é e tão precioso o que devo dizer-lhes, que não posso guardá-lo sem que me oprima a sensação de um roubo: cu é lindo! Fazei o que puderdes com essa dádiva. Quanto a mim, dou graças pelo que agora sei e, mais que perdôo, eu amo.

Além de Adélia, Memória e Sociedade, da Eclea Bosi, A Viagem Vertical, de Enrique Vila-Matas, Memento mori, de Muriel Spark e Salão de Baile, de Vânia Clares, foram livros que sugeriram ótimos sabores.

Lembranças, claro, são sempre úteis. Rostos que viraram estátuas na memória, frases, equívocos, antigas paixões não vividas. Memória é redenção, afinal mulheres impossíveis de serem contidas podem ser contadas. O poço profundo de lembranças fornece a água sempre fresca que pode saciar a sede de qualquer roteiro. As derrotas, as quedas, os fracassos, nessa hora, revelam-se mais úteis que os sucessos. Viva.

Por exemplo, veio do subsolo da memória a cena final do Chega de Saudade.

O poema simbolista de Camilo Pessanha que encerra o filme veio parar ali direto de uma aula de cursinho, quando um professor leu o poema após uma minha desilusão amorosa. O poema que nunca mais esqueci, que é a farsa de uma lírica romântica, já que na verdade faz sucumbir todos os preceitos do romantismo clássico, jogando por terra os pilares do amor idealista e afirmando de modo tão subversivo quanto libertador a frugalidade e a efemeridade de um encontro amoroso que só faz sentido pela circunstância, caiu como uma luva para o momento da história.

A subversão amorosa é a maior redenção de Chega de Saudade, quero crer. O casal de jovens, na plenitude de sua beleza não possui ferramentas para manter vivo nenhum tipo de amor, não têm experiência para escapar das armadilhas do amor institucional, enquanto o outro casal, com barriga e rugas, sinais do tempo, possui ferramentas capazes de afirmar um amor original, seja lá de que moral for, quando tudo em torno conspirava terrivelmente contra.

 

O roteiro do Chega de Saudade também deve muito de sua alma à Dani Schmidt e Ricardo Kauffman. Ela, atriz e dramaturga, ele jornalista e cronista. Pedi aos dois que me ajudassem visitando os salões e ouvindo histórias. Trouxeram relatos e crônicas maravilhosos. Da própria presença da Dani nos bailes, uma jovem estrangeira despertando desejos, ciúmes e invejas, veio a idéia de construir Bel, a jovem namorada do DJ.

O roteiro contou também com a importante ajuda do DJ Tutu. A Laís encomendou a ele uma pesquisa com músicas dançantes de qualidade. Os diversos cds que ele entregou colaboraram diretamente na construção do roteiro. Climas e letras foram incorporados à sintaxe do filme. Algumas músicas levaram à construção de várias cenas. O roteiro indica muitas canções, quando elas não funcionam como um molho externo, mas como um elemento revelador do mundo interior das personagens.

Finalmente foi decisivo para a história que está na tela, as pauladas carinhosas que tomei de alguns leitores muito especiais: Sérgio Penna, Silvana, Nando Bolognesi, Roberto Gervitz, Adriana Falcão, Bráulio Mantovani e claro, a rainha da borduna, Laís Bodanzky.

Caio, LuizLaís

 

Devo confessar que a grande vantagem de um roteiro sobre um filme é que um filme não melhora com as críticas, mas um roteiro sim.

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“Chega de Saudade”, por Laís Bodansky

Posted by ac on 31st March 2008

  

Sempre gostei de dançar.

 

Sou de uma geração que recuperou o  gosto pelos bailes. Peguei uma boa fase onde se dançava brega e forró. Freqüentei muitas casas em que a gente dançava ao som ao vivo de pequenas bandas. Jamais vou esquecer o Panelinha Baiana, onde os garçons que trabalham na Vila Madalena iam dançar às segundas. Descobri esse mesmo frisson  nos bailes tradicionais, com repertórios mais variados e bandas sofisticadas.

Antes mesmo do filme “Chega de Saudade” ser um projeto bem definido, uma coisa já era certa para mim: o meu segundo longa-metragem teria o salão de dança como personagem. Mais do que uma locação, o salão União Fraterna, onde o filme foi rodado, em São Paulo, é um personagem de “Chega de Saudade”.

O salão de dança é um mosaico de personagens fantásticos.

O desejo pulsa em cada corpo. O charme e a sensualidade transbordam.

 

Mas tudo isso esconde sombras de melancolia, solidão, avareza. Enfim, sempre senti nos salões de baile uma metáfora da vida. Meu desafio era tentar fazer um filme aparentemente singelo e despretensioso como nos bailes, mas com a profundidade e os conflitos humanos se revelando lentamente, sem golpes abruptos.

Uma mulher me disse que ao assistir ao filme se sentiu como se tivesse ido ao baile. Que foi como se conhecesse cada um dos personagens, inclusive os menores. E que se sensibilizou com os sentimentos retratados nas pequenas histórias que se desenrolam numa noite de dança. Isso me soou como o maior dos prêmios.

A meu ver, este filme é feminino. Aborda questões universais, mas de um ângulo próprio das mulheres. Você ganha, você perde. E para ganhar, muitas vezes tem de ceder em algo. Neste contexto, existe a verdade da esposa, e a verdade da amante. A razão da casada, e a da solteira. A glória da arrojada e a da tímida. Sem certo e errado.

 

O que me encanta no povo dos bailes é que eles procuram a chance de terem momentos felizes.  Elas têm uma atitude de ir para a rua, de sair do casulo.

“Chega de Saudade” pretende oferecer ao espectador a chance de ser uma mosquinha que pode se aproximar de uma mesa e ouvir segredos ditos ao pé de ouvido, ou a conversa de duas mulheres em frente ao espelho.  Ele permite uma gostosa visita ao mundo dos bailes.

Que é uma festa com muitos atrativos e emoções, sensualidade e libido.

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Chapitre 2: “Protagonista e Objetivo”, por Juliana Reis

Posted by ac on 14th March 2008

Dando prosseguimento à apresentação em capítulos resumidos da edição em português de La Dramaturgie, de Yves Lavandier, proponho para março uma breve introdução a um dos princípios de base da construção dramática. A ponderar sem moderação.

 

RESUMO CAPÍTULO 2 : PROTAGONISTA e OBJETIVO

Quatro condições essenciais

Estabelecer um objetivo único para o protagonista não seria, em princípio, suficiente para garantir a eficácia de uma construção narrativa.

Seria igualmente fundamental:

 

1- Que este objetivo fosse conhecido, ou ao menos percebido, pelo espectador, sem muito tardar, no começo da narrativa.

Enquanto o espectador não for capaz de pressentir, mais ou menos conscientemente, o desejo/necessidade do protagonista, a ação não terá sido instalada e o ele se manterá alheio à história, sensação apenas suportável em curto prazo.

Esta primeira condição impõe ao autor a necessidade de que o objetivo do protagonista esteja claramente definido já em seu próprio espírito. Ainda que se opte por navegar em um certo nível de mistério, não há como se construir uma narrativa rigorosa, sem saber para onde a ação se encaminha;

2- Que o objetivo estivesse ancorado em alguma motivação.

O protagonista deve ser capaz de compartilhar seu desejo com o espectador. Se este último não for capaz de compreender - sem necessariamente aprovar - o objetivo do protagonista, nada estará em jogo em seu espírito e não haverá suspense;

3- Que, através da ação, se revelasse particularmente difícil ao protagonista, atingir seu objetivo.

Isso, contudo, sem torná-lo uma “missão impossível”. Uma das grandes dificuldades do ofício do autor dramático é saber dosar os obstáculos;

4- Que o protagonista fosse movido por um desejo intenso e irresistível de atingir seu objetivo.

Evitar a impressão de que o protagonista possa “deixar para lá” a qualquer momento. Ou a de que, para ele, “tanto faz”.

 

Quanto mais o protagonista quer, mais o espectador se envolve com a sua história.

 

Pensemos em Antígona, prestes a arriscar sua própria vida para oferecer uma sepultura digna a seu irmão.

Em Galileu, que afronta a Terra inteira (e mesmo a peste), tamanho é o seu desejo de saber e de provar sua ciência.

Em Batista, em o “Boulevard do Crime”, que é jogado pela janela por Avril e que retorna pela porta - em geral, os insistentes costumam fazer o contrário: os fazemos sair pela porta, e eles voltam pela janela.

Em Ethan (John Wayne), em “Rastros de Ódio”, que percorre o velho oeste americano durante 15 anos para reencontrar sua sobrinha.

Em McMurphy (Jack Nicholson), em “Um Estranho no Ninho”, que tem tanta vontade de assistir a um jogo de beisebol, a ponto de inventar uma partida imaginária diante de uma tela escura.

Em Ahmad (Babak Ahmadpoor), em “Onde é a Casa do Amigo?”, que pede à sua mãe até que ela ceda e o deixe sair.

Em Gabrielle (Eva Longoria), no primeiro episódio de “Desperate Housewives”, que corta sua grama a meia-noite, de vestido longo, para impedir seu marido de descobrir que ela transa com o jardineiro.

Certas obras dramáticas podem deixar o espectador frustrado, na medida em que seus protagonistas não fazem o máximo que podem, para atingir seus objetivos. Como esperar que o espectador torça pelo protagonista, se o próprio não se investe no que deseja. Em outras palavras: se essa ação, principal, não importa muito para os personagens, por que importaria para o espectador?

É a razão do fracasso de “Agente Secreto”.

Hitchcock explica: «Eu penso saber por que o filme não foi bem sucedido. Em um filme de aventuras, o personagem principal deve ter uma meta. Isso é vital para a evolução da história e para a participação do público que deve apoiar o personagem e, eu diria, quase ajudá-lo a atingir seu objetivo. Em Agente Secreto, o herói tem uma tarefa a realizar, a de matar alguém, mas esta tarefa lhe causa horror e ele evita cumpri-la de todas as maneiras.»

Na verdade, poderíamos arriscar dizer que o protagonista de “Agente Secreto” possui dois objetivos contraditórios: o primeiro, matar alguém, imposto por seus superiores; o segundo, escapar desta tarefa.

Infelizmente para a eficácia do filme, falta tensão ao primeiro objetivo. E o segundo, não é tratado.

“Agente Secreto” faz parte dessas obras nas quais uma missão é confiada a um personagem (frequentemente um soldado, um policial, um espião ou um detetive). Para que esse tipo de obra funcione, seria necessário que o futuro protagonista fosse motivado pela missão em si e que se apropriasse do objetivo que lhe é dado.

 

Como conclusão, a de que um protagonista deve ser, sobretudo, ativo. Eventualmente, reativo. Mas nunca passivo. E seu objetivo deve dar a impressão de se tornar, a cada cena, e, cada vez mais, uma idéia fixa, uma missão, uma necessidade irrefutável ou uma fatalidade.

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