BLOG - Autores de Cinema

Archive for February, 2008

“Carla e o Laboratório”

Posted by ac on 29th February 2008

Originalmente realizado em parceria com o Sundance Institute no Brasil, os Laboratórios SESC Rio de Roteiros para Cinema organizados por Carla Esmeralda valorizam a função do roteiro na produção cinematográfica e, conseqüentemente, a profissão do roteirista no mercado cinematográfico brasileiro. 

          

Dessa forma, quem ganha é o cinema brasileiro, privilegiado neste processo de discussão de linguagens e temáticas diversas que já contou com a participação de 218 roteiristas.

Ao todo, os 88 roteiros selecionados receberam mais de mil horas de consultorias de profissionais especializados dos mercados nacional e internacional, sendo 26 deles já produzidos para o cinema. Alguns exemplos são “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes, que participou do laboratório em 1996, “Durval Discos”, de Anna Muylaert, em 1998, “Cidade de Deus”, de Bráulio Mantovani, em 1999, “Se Eu Fosse Você”, de Carlos Gregório, em 2000, e “O outro lado da rua”, de Melanie Dimantas e Marcos Bernstein, em 2001.

 

 

 

Recentemente, os longas “Mutum”, de Sandra Kogut, e “O ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburguer, cujos roteiros também foram trabalhados no laboratório, participaram dos dois grandes eventos do cinema mundial: os festivais internacionais de cinema de Cannes e de Berlim.

 

 

Em paralelo, estão em fase de produção os projetos “Antes que o Mundo Acabe”, de Ana Luiza Azevedo, “Condomínio Jaqueline”, de Roberto Moreira, e “É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert.

Os 10 roteiros que participaram do laboratório em 2007 foram: “A mergulhadora”, de Maria Camargo, “Arroz com feijão”, de Katia Lund, Eduardo Tripa e Anna Muylaert, “Carta para Barbosa”, de Julio Pecly e Paulo Silva, “Caótico”, de Igor Barradas, “Corpo presente”, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori, “DesNorteados”, de Gustavo Moraes, “Faroeste caboclo”, de Paulo Lins e René Sampaio, “Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos”, de Julia Murat, Maria Clara Escobar e Felipe Sholl, “Teca e Tuti em: Uma noite na biblioteca”, de Diego M. Doimo e Eduardo Perdido e “Uma estrada em minha casa”, de Fabiano de Souza.

Para a consultoria desses roteiros, trabalhando diretamente com os roteiristas, foram convidados 10 consultores, brasileiros e estrangeiros, coordenados por Carolina Kotscho e Carla Esmeralda.Do Brasil, Claudio Galperin, David França Mendes, Hilton Lacerda, Marcos Bernstein e Melanie Dimatas.Da Itália, Cristiano Bortone. Da Argentina, Enrique Bellande. Da Inglaterra, Lucy Scher. Dos Estados Unidos, María Amparo Escandón e Scott Williams.

 

As fotos de Carla Esmeralda são de Carolina Kotscho.

O texto é de Alexandre Sivolella Barreiro.

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“Consultor de Roteiros”, por Marcos Bernstein

Posted by ac on 25th February 2008

Tudo começou em 1996.

Alguns meses do ano já haviam se passado quando escuto a notícia de que o Sundance Institute iria promover com parceiros locais o seu primeiro laboratório de roteiros no Brasil. Fiquei animado. Não acredito em sinais, mas aquilo era um sinal.Isso porque para mim aquele ano havia começado em janeiro, não porque todos os anos começam assim, mas porque naquele mês o roteiro de Central do Brasil, que havíamos escrito ao longo de 95, ganhou um prêmio de apoio à sua realização dado pelo…Sundance Institute (em conjunto com a rede de TV japonesa NHK).

Mais, durante o festival do…Sundance, no qual aquele prêmio foi anunciado, havia sido exibido o único filme produzido até então com meu nome como roteirista,”Terra Estrangeira.”    

 

 

Era muito Sundance junto para ser à toa.

Só tinha um problema. Dois, na verdade. Há basicamente duas posições nas quais você pode ir a um desses laboratórios. Como roteirista ou como consultor. E eu não só não tinha roteiro para inscrever, os dois filmes aí de cima eram os únicos roteiros que tinha feito até então, como pelo mesmo motivo não havia ainda a possibilidade de me chamarem para ser consultor. E, assim, nem tudo iria começar em 1996…

Não fosse o que muitos chamam de perseverança e outros de chatice mesmo.

Consegui o telefone da organização do laboratório e coloquei meu caso: “tinha ganhado um prêmio do Sundance, logo não podia inscrever o tal roteiro, mas tinha muita vontade de conhecer o método, etc., etc. e será que não podia ir como observador, etc., etc., talvez nunca mais  haja essa chance…”. Colou e fui.

Mas, atenção. Como dizem aqueles disclaimers de coisas perigosas exibidas na televisão, “não tentem fazer isso em casa”. Aquele era um ano peculiar. Hoje, esse papo não colaria mais. Aquele era o primeiro laboratório, um laboratório bem peculiar por sinal.

 

*

 

Aconteceu num hotel de luxo numa ilha; patrocinadores chegavam de helicóptero; roteiros eram mais argumentos do que roteiros de verdade, alguns pareciam até sinopses; havia hostess louras e gostosas; traduções de roteiros não ficavam prontas a tempo…Coisas muito pouco parecidas com os Laboratórios do Sundance lá fora e com o que iria se consolidar aqui nos anos seguintes.

Mas o que era parecido, e que é a essência desse modelo, era a forma como se davam as discussões dos roteiros.

Isso estava lá. Ao longo de alguns dias, dez roteiristas (ou mais, dependendo da co-autoria) saem de suas casas para se internar num lugar isolado e lá ter encontros de cerca de duas horas com cinco consultores, sendo parte deles brasileiros e parte estrangeiros. Só isso. E tudo isso.

Não são encontros quaisquer. No mundo do cinema, normalmente quem discute um roteiro com o roteirista tem algum interesse objetivo no projeto. Ou te pagou para escrever aquilo, ou considera te ajudar a achar dinheiro para produzir o filme, ou pensa em investir para distribuir. Ou talvez alguma coisa mais sórdida que não me vem à cabeça agora.

Já nesses laboratórios, os consultores, roteiristas com mais experiências, tendo feito filmes que se destacaram em seus países e em festivais, discutem o roteiro da forma mais honesta possível. Expõem o que pensam sobre o que leram, ou instigam os que estão ali com seus projetos a tentarem explicar ou descrever quais seus anseios quanto ao que escreveram. E, diferentemente dos encontros normais de roteiro, os consultores não tem nenhum interesse objetivo naquele texto. Estão interessados apenas em ajudar aquela pessoa a fazer o melhor roteiro possível. Daí a sinceridade (quase) absoluta.

Parece altruísta e é.

Claro que cada consultor tem sua razão para estar lá. Algumas razões podem ser fugir do isolamento que é escrever, ser bom para o currículo, renovar sua crença na profissão ao ficar uma semana sem falar de captação de recursos, sumir de casa, ajudar… Mas, seja lá qual for a razão, são encontros como nunca se tem a oportunidade de ter no “mundo real”.

Naquele primeiro ano tive também a oportunidade de presenciar um dos grandes mistérios dos laboratórios para os que levam seus roteiros para lá. Todo dia pela manhã, os consultores se reúnem sem os roteiristas e… Bom, isso me traz ao tema desse texto. Ser consultor de laboratórios de roteiro.

Minha carreira como consultor começou dois anos depois, no terceiro laboratório, o segundo conduzido por Carla Esmeralda, que se tornou a grande organizadora desses eventos no país, em suas várias encarnações.

Com o Sundance ou sem ele, como é hoje em dia, de que forma for, lá está ela, bravamente, sempre tentando aprimorar o que já é ótimo.

O pior é que consegue.

Desde então, há exatos dez anos, creio ter sido ao menos quatro vezes consultor no Brasil e mais duas no próprio Sundance em Utah. Já participei de muitas daquelas reuniões.

 

Vamos a elas.

 

*

Por cerca de duas horas cada manhã, os consultores discutem sobre todos os roteiros. A ordem de discussão dos roteiros é aleatória, mas, uma vez começado com um roteiro, segue-se na ordem cronológica dos encontros que irão acontecer, ou que aconteceram.

Aqui cada um coloca suas impressões sobre o que leu. Os outros escutam, apartam e inicia-se uma discussão. Muitos pontos serão em comum. Quando fala um consultor que já teve seu encontro com o roteirista, ele expõe como foi esse encontro, desde os tópicos abordados, como a reação dos roteiristas e eventuais conclusões. Os outros consultores assim começam a entender como deverão proceder na hora em que tiverem suas consultorias, i.e., se seguem a mesma abordagem, adicionando a ela, se toma um rumo completamente diferente, etc.

Isso porque algumas vezes há discordâncias fundamentais de abordagem e interessantes e distintos pontos de vistas se confrontam. Provavelmente, outras vezes, um acha que o outro é meio idiota no seu comentário, olha os créditos do que o cara fez e avalia… Faz parte.

Apesar do altruísmo envolvido na consultoria, há momentos de pura ironia e sarcasmo.

Um bando de roteiristas reunidos significa que em certo momento um pretende ser mais rápido e engraçadinho que o outro. Infeliz do roteiro vítima do ataque. Normalmente uma vez a cada laboratório, temos uma crise coletiva diante de um roteiro que não entendemos ter sido selecionado. Claro que deixamos de lado o fato de que muitas das vezes nós mesmos selecionamos a obra-prima.

Provavelmente esses momentos existem como defesa para superarmos certas porcarias que nós mesmos acabamos escrevendo. Há algo pior no mundo. Mas esses são poucos e raros momentos. Talvez catarses. Felizmente não são gravadas e nunca saem dali. Fato é que quase que 100% do tempo a reunião é uma tentativa intensa de achar a melhor e mais eficiente maneira de ajudar os roteiristas.

Como consultoria é obviamente feita por consultores, vale falar um pouco deles. Após esses anos e tantas reuniões é possível traçar certos perfis. Ou arquétipos como é moda falar no jargão roteirístico.

Tem o mordaz, virulento, impiedoso em suas certezas. Tem o emotivo, que está sempre pronto a aprender com os roteiristas. Tem o óbvio, que como o próprio nome diz costuma desfilar clichês. Tem o empolgado, que acredita na vocação sagrada de contar histórias e que te faz ter vontade de sair correndo para escrever algo de valor…ou simplesmente sair correndo. Tem o bom ouvinte, psicólogo, que está lá para escutar os roteiristas e eventualmente lança algo. Tem o que tem certeza de que faria aquele roteiro melhor e traz várias idéias que os roteiristas deveriam seguir se fossem minimamente inteligentes…

Bom, talvez tenha de tudo. Eu mesmo creio já ter sido um pouco de todos em cada laboratório, dia a dia, a cada encontro. O que nos leva ao objetivo desses laboratórios.

 

O encontro, cara a cara, com os sujeitos que escreveram aqueles roteiros.

 

 

Os encontros são sempre um mistério, uma surpresa.

 

 

Além das expectativas baseadas na sua apreciação dos roteiros envolvidos, no primeiro dia há o completo desconhecimento de quem são essas pessoas. Nos dias seguintes há expectativas baseadas em conversas informais e nas informações trocadas nas reuniões de consultores. Começam a delinear-se os tipos: o roteirista que escuta tudo com atenção e nunca se manifesta, deixando o consultor na dúvida se está agradando ou se o outro o acha um imbecil; tem o arrogante que te acha sem sombra de dúvidas um idiota; tem o inseguro que acha que tudo está mesmo uma droga no que escreveu; tem o que foi com roteiro pronto e está lá só para confirmar isso; tem o que nunca tinha feito um roteiro e quer aprender o básico; tem os que aproveitam cada segundo, mesmo que não venham a utilizar muito do que foi dito…

Mas, o instigante, é que muitas vezes os que deveriam ser os melhores encontros, são os piores e aqueles encontros que você imaginava que seriam sensacionais se tornam um fracasso. Às vezes você odeia um roteiro, mas acaba encontrando um canal de trocas interessantes. Noutras, você adora o roteiro e se vê sem ter o que dizer além de que gosta de tudo o que o roteirista escreveu, mesmo coisas que o próprio sujeito tem dúvidas quanto a sua qualidade. E fora esses encontros?

 

Nas horas vagas, vemos e debatemos os filmes uns dos outros, falamos de dramaturgia, de visões de cinema, da vida.

 

Conhecemos outros roteiristas e nos lamuriamos de nossa profissão, o que de certo modo acabou viabilizando a criação de uma associação como a nossa, saída de tantas conversas tidas ali.

 

Enfim, acho que essa é a mecânica da consultoria.

 

Mas qual é realmente o papel do consultor?

Acho que é ser um pouco de tudo que disse acima: provocador, mordaz, emotivo, empolgado, às vezes óbvio, psicólogo. É pensar que aquela é uma oportunidade única de ajudar o cineasta, chamado roteirista, que está ali diante de você a fazer o filme que ele imaginou fazer, seja ele o diretor do projeto ou não. É descobrir o que motivou aquela pessoa a estar ali e tentar ajudá-la, dentro de suas próprias regras, concordemos com elas ou não, gostemos ou não de suas idéias, a concretizar da melhor e mais precisa maneira possível seu sonho, sua visão daquele filme…

E assim eu termino como um “empolgado”.

Saiam correndo.

 

 

Fotos do Laboratório Sesc-Rio de Roteiros 2007 por Carolina Kotscho.

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Laboratório de Roteiros Sesc-Rio: “Diário de Bordo” ou “A Incrível Semana em que a Montanha Virou Mar”, por Maria Camargo

Posted by ac on 25th February 2008

Dia 1, Terça -feira: Calmaria, com previsão de mudança de tempo.

 

Os consultores trabalharam bastante nesse primeiro dia, mas para nós, roteiristas selecionados, a terça-feira foi basicamente um reconhecimento de terreno: malas no quarto, roupas no armário, aqui é o restaurante, ali a sala de reuniões. Eu já havia estado no Sesc Nogueira para o Laboratório de Roteiros de Cinema Infantil, em 2004, mas entre uma edição e outra muita coisa mudou. Os quartos foram reformados e estão mais confortáveis, a comida ainda mais caprichada. Me pergunto como será a experiência dessa vez.  

Quem eu era, há três anos? Quem sou agora?

Acho que, apesar da reforma visível do alojamento, quem realmente mudou fui eu.

 

Bem, mudei, mas nem tanto. À tarde, na reunião de apresentação do grupo, onde cada um diz quem é e que projeto o levou até ali, por pouco não emudeci. A velha timidez de sempre deu as caras. Afinal, não escapei: “Eu sou Maria Camargo, meu roteiro se chama ‘A Mergulhadora’ e é uma biografia da psiquiatra Nise da Silveira”.

 Nise                                 (+)

Jung

Dito isto, voltamos à mesa para o jantar (come-se o tempo todo, no laboratório). De sobremesa, a projeção do filme “Vermelho como o Céu”, de Cristiano Bortoni, um dos consultores.

 Depois de debater o filme, ficamos por ali mais um pouco, ansiando por um álcool que nos preparasse para uma  boa noite de sono e para uma quarta-feira  intensa. Não havia, e ficamos bebendo xícaras de Nescau de pé, como quem toma um chopinho.

É claro que não funcionou.

A noite do Nescau, como não podia deixar de ser, acabou cedo, mas cheia de expectativas: “A Mergulhadora”, roteiro cheio de necessidades e imperfeições, aguarda impassível sobre a mesa de cabeceira.

 

 

Dia 2, Quarta-feira: Tempo instável, ondas altas. Teste de fôlego e sobrevivência em alto-mar.

Consultores: Enrique Bellande (Argentina) e…

Melanie Dimantas (Brasil)

 

O farto café da manhã foi introdução elementar para a  manhã ensolarada em que, sentada numa bucólica mesinha à beira da piscina,  apanhei de um argentino. E dessa vez não foi do meu analista, que compartilha a nacionalidade com Enrique Bellande. Nossos vizinhos continentais não são conhecidos pela delicadeza, e eu mais uma vez me lembrei por que.

Enrique tem punhos de aço e nenhuma papa na língua, provoca como ninguém, mas também me faz lembrar porque continuamos visitando Buenos Aires, lendo literatura argentina, comendo bife de chorizo e insistindo na rixa: eles sabem o que fazem.

Ele apontou algumas falhas evidentes do roteiro (para quem olha de fora, é claro), outras mais sutis, e assim me ajudou a enxergá-las mais claramente.  Basicamente: o fato de que minha matéria prima é feita de  fatos e personagens reais me manteve atada demais à realidade. É preciso mentir. Mentir mais, muito mais, me aconselhou o argentino documentarista. O que parece ser um paradoxo, torna-se ainda mais radical quando consigo formular: para ser mais verdadeira e mais fiel aos meus personagens, preciso mentir mais. Quanto mais mentira, mais verdade.

Depois do almoço, Melanie soprou um pouco minhas feridas.

  Não que ela tenha aliviado muito o roteiro, mas a aparência de uma conversa de comadres amenizou a consultoria da tarde.Ela compartilhou a opinião de Enrique: preciso voar mais, mesmo com as limitações  inevitáveis do projeto.

Como conciliar as opiniões dos consultores (com as quais concordo), o desejo do diretor do filme (dono do projeto, portanto), a fidelidade à mulher sensacional que foi Nise da Silveira e o meu próprio olhar? Talvez eu deva começar por onde acabei a frase anterior: que olhar é o meu?

Aproveitando a deixa, miro o horizonte, onde nuvens pesadas anunciam tempestade. Me lembro daquele casal de mergulhadores paulistas que estava no fundo do mar da Tailândia quando uma onda gigante passou sobre eles. Quando voltaram à superfície, a tsunami tinha destruído tudo e a cidade não existia mais. Eles, que estavam nas profundezas, restaram ilesos.

Talvez a salvação, como disse Nise da Silveira, seja mesmo vestir um escafandro e descer ao fundo do mar.

 

Durante a noite, depois da projeção de “O Ano em que meus pais saíram de férias” e do debate com o Cláudio Galperin (que fez até a tradutora chorar),  o friozinho da serra de Petrópolis entra pela janela e aos poucos transforma-se em maresia.

Sonho com o mar, com um mergulho possível.

 

Dia 3, Quinta-feira: Céu azul, sol intenso e águas acolhedoras.

Consultores: Cláudio Galperin (Brasil), Maria Amparo Escandón (México)

 Ter o Cláudio como consultor é um privilégio que não tinha me saído da memória desde o laboratório de 2004.

 Hoje, tive a sorte de poder contar, mais uma vez, com seu olhar agudo e generoso.

Assim como Enrique e Melanie, ele insistiu na necessidade de me libertar dos fatos e da personagem “real”. Discutimos, entre outras coisas, questões valiosas para a elaboração de um roteiro: pontos de vista e suas implicações, desenvolvimento de personagens, a relação entre  realidade e ficção, o processo criativo, e até o uso mais esperto do final draft. No final das contas, ouvir críticas construtivas, da forma mais delicada possível, foi como imergir em água morna e confortável.

Depois do almoço relâmpago (e delicioso, mais uma vez), meu encontro foi com a mexicana Maria Amparo Escandón. Ela não fugiu à regra que se insinua até aqui: insistiu na necessidade de “ficcionalização” dos fatos - pois estes já tenho bem claros e dominados.

Maria Amparo criou até uma espécie de gráfico para me ajudar a enxergar caminhos. É curioso notar como a coincidência de diagnósticos não impede que a abordagem de cada consultor e suas sugestões para solucionar os problemas sejam radicalmente diferentes. Talvez essa seja uma das maiores riquezas do laboratório.

Houve a projeção de “Santitos”, um debate com Maria Amparo, uma breve fuga pela estrada em busca das famosas empadas de Nogueira (cuja fama é mais do que merecida) e ainda  um restinho de consultoria com o Enrique, pois ainda não havíamos conseguido dar conta de todo o roteiro. Não que eu goste de apanhar, mas não dava para desperdiçar a sua disponibilidade e, muito menos, sua perspicácia.

No fim do dia meus filhos telefonaram, saudosos.  Contaram novidades e  me lembraram de que no Rio de Janeiro a vida continua, com compromissos acumulando-se em velocidade vertiginosa. Há tanto o que fazer, tanto o que escrever, mas também uma certa nostalgia antecipada. Os dias na serra, tão intensos, passaram rápido demais.

Como foi nossa última noite em Nogueira, Carla Esmeralda e Carolina  Kotcho nos presentearam com uma inacreditável mesa de quitutes de botequim e, é claro, bem-vindas caipirinhas. (Nescau, nunca mais!).

CarlaCarol 

 

A trilha sonora também teve um quê de inacreditável, comportando até uma canja da Marta Moreira Lima, uma das tradutoras, cantando Kurt Weill em alemão. O “Get together” aqueceu a noite na serra e os últimos remanescentes voltaram para o quarto às quatro da manhã. Eu estava entre eles, tonta, mas não por causa do álcool, e sim pelas tantas perguntas disparadas sobre o meu roteiro, sobre o meu ofício, sobre as minhas escolhas.

Me lembro da frase de Manoel de Barros, que por ironia tenho impressa e colada no computador: “Tudo o que não invento é falso”. Por que caminhos me perdi e me esqueci dela? O que penso agora sobre o que escrevi? Minha embriaguez ainda não me deixa ver claramente, mas sinto que a reflexão que se inicia aqui é um caminho sem volta.

Para onde irei? Iremos?

 

 

Dia 4, Sexta-feira: Mergulho em águas profundas, onde o inesperado acontece (”Time to Cry”)

Consultor: Scott Williams (USA)

Em meio à tarde ensolarada, enquanto o ônibus carregado de malas se prepara para deixar Nogueira, tenho muita dificuldade para segurar lágrimas insistentes. Me despedir do Scott é especialmente emocionante. Horas antes compartilháramos muitas dessas lágrimas numa consultoria incrível, surpreendente.

Ela começou mais ou menos como as outras mas, quinze minutos depois, numa frase, tudo mudou. “Existem dias bons e dias ruins”, disse Scott, referindo-se ao cotidiano de um hospital psiquiátrico, onde se passa minha história. “E, se você tiver sorte, muita sorte, haverá mais dias bons do que dias ruins”.

Daí em diante, compartilhando experiências pessoais relacionadas ao tema, choramos ao mesmo tempo ou alternadamente boa parte das duas horas que passamos juntos. Se no laboratório houve um clímax, foi aí que ele aconteceu.

Lembrei de histórias pessoais que insistia em esquecer, chorei lembranças que pensei haver deixado para trás. Além das limitações impostas pelo tema, pela realidade, pela própria natureza da escrita de um roteiro, finalmente encarei as minhas próprias limitações. “Você não correu riscos como roteirista. Não como os riscos que Nise correu como psiquiatra”. Sim, sim, sim, Scott. E mais um pouco de choro pois, afinal, quem está no mar é para se molhar.

Um mergulho, finalmente? Será que vou conseguir ficar tanto tempo sem respirar? Será?

Uma hora e meia de caminhada morro acima; o almoço que ficou entalado na garganta; a reunião de despedida onde, dessa vez mais justificadamente, não consegui falar pois minha voz embargada denunciava tudo; e agora estamos todos preparando-nos para partir. Na minha bagagem, muito mais perguntas do que respostas, mas pelo menos uma certeza: a experiência no laboratório ultrapassa, e muito, os benefícios possíveis para o roteiro selecionado. É um presente com validade indeterminada, que iluminará todas as histórias que vierem a cruzar o caminho. No meu caso, houve ainda o bônus totalmente inesperado de viver uma experiência pessoal transformadora.

A estrada sinuosa que desce a serra vai em direção ao Rio de Janeiro, mas não sei ainda aonde vai me levar. Quem sabe a lugarejos de acesso complicado, mas cuja beleza faz com que todo o percurso se justifique. Ou talvez, finalmente, às águas profundas onde a tsunami não ameaça nem destrói, mas transforma.

 

 

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“Plot Point”, por Alessandro Giannini

Posted by ac on 25th February 2008

 

 

 

 

Caros amigos e amigas roteiristas,

 

 O amigo Di Moretti pediu que eu escrevesse um texto para ser publicado no recém-criado site da Autores de Cinema.

Primeiro, pensei em escrever algo bem formal, uma espécie de “pensata” sobre como via o trabalho do roteirista no Brasil. Depois, pensei no que disse o Serge Toubiana, em entrevista à minha amiga Ana Paula Sousa, da Carta Capital, título com o qual também colaboro. Toubiana, diretor de redação da Cahiers du Cinema, que escreveu a mais abrangente biografia de François Truffaut, disse que, por conta da evolução do cinema, das mudanças na mídia e o aparecimento da internet, a relação dos críticos com os filmes e os espectadores também deveria mudar, deveria ser mais lúdica e menos sisuda. Foi por essa associação livre de idéias que resolvi escrever uma espécie de carta para dizer por que admiro muito o trabalho do roteirista brasileiro - assim mesmo, “roteirista brasileiro”, porque tem essa especificidade.

  Truffaut por Tubiana

 

Antes de tudo, no entanto, quero contar pequenas histórias. Sou jornalista por acaso. Meu pai, um italiano que teria 86 anos de idade se estivesse vivo, era hoteleiro na Itália e, quando veio para o Brasil, estabeleceu-se no comércio de peças para motocicletas. Minha mãe, a dona Vera, 78 anos, sempre foi uma árdua dona-de-casa. Foram eles que me ensinaram a gostar de filmes. Não era paixão de cinéfilo pela sala escura, mas a paixão pela viagem que proporcionavam aquelas histórias todas. Assim, posso dizer, que devo muito ao velho Giannini (dono absoluto do único controle remoto de casa) e ao Paulo Perdigão (programador de filmes da Rede Globo) o despertar dessa minha relação com o cinema e com os filmes.

Desde muito cedo, também, lia jornal, lia muito. O Estadão, desde sempre, e a Folha, ocasionalmente, quando meu pai resolvia dar uma variada na assinatura. Às segundas, era sagrado o Jornal da Tarde, com a edição de esportes. Eu, como era meio “diferentão”, comprava também às sextas, quando saíam as críticas do Edmar Pereira. Ficava embevecido com os textos. E nem imaginava que viria a ser seu colega e o sucederia anos mais tarde, quando ele morreu em conseqüência da Aids. Colava os textos do Edmar, do Rubens Ewald, da Póla Vartuck e de outros críticos - em um caderno que levava para cima e para baixo. Devo a esses críticos a minha paixão pela leitura, pelo olhar diferenciado.

Quando chegou a hora de escolher, coloquei na cabeça: queria fazer cinema. Dizia isso para todo mundo e todo mundo me olhava como se eu estivesse brincando ou dizendo uma grande bobagem. Fui pesquisar e descobri que só tinha dois cursos de cinema no Brasil, o da ECA e o da FAAP, mas só o da USP era gratuito. Outra descoberta terrível: o vestibular disponibilizava apenas quinze vagas, tão concorridas quanto as do curso de medicina. Depois de muito pensar, decidi que se não entrasse no curso de cinema, faria jornalismo e escreveria sobre filmes. Dito e feito: fiquei em 25º. lugar na lista dos 52 candidatos que concorriam às vagas de cinema - muito abaixo dos quinze consagrados.

Conto todos esses pedaços da minha história para dizer que percorri uma trilha da qual muito me orgulho. E nunca desisti de tentar retomar o sonho antigo que é o de fazer parte desse clube seleto de cineastas. Uma vez, Luiz Carlos Merten, do Estadão, disse para mim que gostava mesmo disso: ver o filme e escrever sobre ele; entrevistar pessoas e escrever sobre elas.

“Não, Gia, nunca pensei em escrever roteiro ou dirigir filme, eu gosto é disso”, completou ele, com os braços no ar, como só foi acontecer.

“Eu gosto mesmo é de escrever.”

 

Acho que, de certa maneira, nunca me esqueci disso porque na minha cabeça também fui inspirado pelo que meu amigo Merten me disse. Quero justamente o contrário, quero contar as minhas próprias histórias. Quero muito mais. Tudo isso para dizer que, com certeza, farei o caminho de volta ao cinema. Só que aquele sonho de dirigir e me tornar um grande cineasta foi substituído por outro, de escrever roteiros e contar histórias.

Depois de fazer muitas visitas a sets, aqui no Brasil e no exterior, e ver a modorra que é a rotina de uma equipe de filmagem, decidi que escrever seria um ótimo caminho para seguir no cinema. Um caminho muito melhor do que ser diretor ou técnico, funções com as quais cheguei à conclusão de que não tenho a menor identificação.

Faz tempo que, secretamente, cultivo esse sonho de escrever roteiros. Já li de Doc Comparato a Jean-Claude Carrière, passando por Syd Field, Vogler e outros mágicos dos manuais do roteiro. E, não é apenas por identificação, já que sou um jornalista da escrita. É porque acho um terreno muito mais fértil do que qualquer outro, muito mais rico e mais cheio de possibilidades - bem mais do que o imagético, por exemplo.

Carrière

Faz muito tempo dizia-se que um dos grandes problemas do cinema brasileiro era a falta de bons roteiristas. Claro que esse foi um preconceito alçado à condição de verdade absoluta que se cristalizou nos textos e nas bocas de gente ignorante.

 

Hoje, o time brasileiro de roteiristas tem atletas de primeira grandeza.

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