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“A coisa mais difícil do mundo”, por Adriana Falcão

Posted by ac on 1st July 2008

Um dos grandes problemas que tenho carregado nos últimos anos é preencher ficha de hotel.

Sei de cor e salteado meu nome, sobrenome, data de nascimento, endereço, CPF. Mas quando chega o item “profissão”, logo vem a agonia. Escritora? Ninguém vai acreditar nisso. Escritora é a Clarice Lispector. Roteirista? Aí quem não acredita sou eu.

Apesar de já ter colaborado em vários roteiros para cinema e televisão, não consigo afirmar que sou uma roteirista sem me sentir meio impostora.

Escrevo diálogos, gosto de trabalhar na construção de personagens, posso dar uma ou outra idéia para a estrutura. Mas escrever um longa metragem do começo ao fim: argumento, sinopse, escaleta, tratamento, e - o mais importante - com qualidade, é a coisa mais difícil que já tentei fazer.

Desnecessário dizer que jamais consegui realizar a proeza.

Talvez eu seja excessivamente autocrítica, exigente demais, ou talvez não tenha mesmo vocação para a coisa.

O fato é que sempre que começo qualquer trabalho tenho a pretensão de chegar ao melhor resultado possível. E quando este trabalho é um roteiro para cinema invariavelmente concluo que eu não sou a melhor pessoa possível para chegar a um resultado que me agrade.

Já li vários livros sobre o assunto, já acompanhei o desenvolvimento de alguns roteiros (colaborei com alguns deles), já assisti a excelentes filmes.

Na minha hora de fazer, duvido que seja capaz de me embrenhar na dificuldade sozinha e só me atrevo se tiver um bom parceiro.

Quando escrevo diálogos para uma cena pré-concebida, sinto que enriqueci a função dos personagens na trama, consegui mover a história, não desperdicei palavras, procurei trazer algo de surpreendente ou interessante para a cena, e, em geral, não me envergonho do meu trabalho.

O grande problema está na etapa anterior a esta. Por mais que eu saiba que construir uma escaleta não é apenas ordenar os fatos da história, mas, principalmente, criar cenas atraentes para contar os fatos na ordem que melhor servir à forma, é aí que eu travo.

Não sou a pessoa mais sem criatividade do mundo, conheço razoavelmente o terreno, sei o que estou buscando. Posso até conseguir construir uma escaleta mais ou menos. Sinto, porém, infelizmente, que por mais que estude e pratique, nunca terei a idéia genial que gostaria de ter. Ou pelo menos uma quantidade suficiente de boas idéias que tornem o meu roteiro merecedor da pequena fortuna que custa produzir um filme.

Algumas pessoas estranham o fato de que alguém que admita ter tamanha dificuldade em construir um roteiro, ouse aceitar o desafio de escrever contos ou romances.

Estranho ou não, este é o meu caso.

Não considero nem um pouco fácil me aventurar pela literatura. Muito pelo contrário. Mas penso que sou capaz de enfrentar essa dificuldade. Além disso, sinto um enorme prazer quando passo horas buscando uma idéia de história, o perfil de um personagem, o tom da narrativa, a palavra exata, a frase, a sonoridade, o ritmo, a forma.

Penso que o fator “falta de complexo de culpa” me ajuda muito a escrever textos literários. É que neste caso, o problema é comigo, com o tempo e o entusiasmo que estou apostando naquilo, com as idéias e com as palavras. Não envolve terceiros, orçamentos, patrocínios. E se o resultado não me satisfizer, é só deletar tudo e tentar outra vez.

Gostaria muito de ter a vocação que o cinema exige. Um dos meus maiores sonhos é ser, um dia, uma roteirista de verdade. Enquanto esse dia não chega, só me resta conviver com a minha fiel insegurança, a minha inaptidão para desvendar o segredo da magia, e aquela mesma dúvida de sempre na hora de preencher ficha de hotel.

 

Adriana Falcão

 

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