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“Dançando conforme a letra”, por Flávia Guerra

Posted by ac on 2nd April 2008

Brasília, novembro de 2007.

Saio da esperada estréia nacional de Chega de Saudade no Festival de Brasília. E ouço, como uma luz forte que ofusca, a pergunta incisiva: E aí? Gostou? Como é?

 

E eu, ainda esperando o ‘retrogosto’ bater na garganta, disse, sem pensar: “Uma delícia. Tem um perfume de O Jantar do Ettore Scola, mas o gosto é melhor. Tem mais tempero.” “Não. Este filme é sobre dança. Está mais para O Baile. A câmera chega a dançar com os personagens”, disse alguém, não de todo equivocado, a meu lado, em um discurso cheio de ritmo sobre como a câmera de Walter Carvalho passeia elegante pelo salão do União Fraterna, um dos salões de baile mais queridos da Paulicéia.

E insisti: “Não. Não é sobre dança. Sobre dança é Tango, do Carlos Saura. Este filme é um filme sobre a vida. Há tanto diálogo. E há tanta falta dele. A palavra ecoa como um mantra no salão.” E os companheiros cinéfilos de festival disseram sem palavras, mas no franzir de sobrancelhas: “Desce daí, Alice. Mantra no salão? Tinha de ser coisa de aquariana que faz yoga mesmo.” E calei as palavras diletantes e amadoras.

Porque não há melhor forma de dançar conforme a música em um filme do que o ver com olhos de amador diletante.

 

Meses depois, revejo Chega de Saudade. E a sensação das palavras que se dizem, e as que não se dizem (com ou sem o verbo), não sai da garganta. Encontro ao acaso (Como diria Robert Bresson, “que força têm as coisas que conseguimos ao acaso!”) Luiz Bolognesi e Laís Bodanzki já na saída de um dos debates que o filme ganhou. Veja, este é um filme que se baila, se debate, se deixa decantar como uma boa música, para voltar macio aos olhos e ouvidos. Cada vez, melhor. E tenho a sorte de ouvir de Luiz e Laís que a conversa que tiveram com Luiz Carlos Merten (crítico, repórter e amador do cinema do Estadão) os fez chorar. E por quê? Porque ele nos trouxe uma visão nova. “Este é um filme sobre as palavras”, diz Luiz, o Bolognesi, mestre das palavras que concatenam o roteiro que guia a diretora no set. Não por acaso em espanhol roteiro é guión. Um grande guia a trilha os caminhos seguidos (ou não) em um set.

E volto a Brasília. E volto a dizer: Exato! Aliás, quem foi que disse pela primeira vez (e que muitos insistem em repetir): Roteiro não tem que ter muita palavra. Roteiro é ação! Pois sim. E os personagens de um filme o que fazem? Dançam apenas? Até o cinema mudo. Palavras. Bem colocadas. Sem (ou com) exagero.

Evoco Herman Mankiewicz, responsável pelo roteiro de Cidadão Kane, o cineasta das palavras. Evoco Michelangelo Antonioni, que com sua economia de palavras ousou fazer o cinema da incomunicabilidade. E atire a primeira bolinha de papel quem nunca decorou um grande diálogo do cinema. “Are you talking to me?” Me pego repetindo diante do espelho feito Travis, de Táxi Driver.

E me pego dizendo a Luiz: Pois eu estava com este gosto na boca desde Brasília. Mas não tive palavras para postular esta máxima. Em Chega de Saudade, cada palavra tem sótão e tem porão. Nada é por acaso neste baile em que um DJ maior toca cada sílaba no compasso de um bom samba-canção.

Uma prova? Como é que Alice (Tônia Carrero) convence Álvaro (Leonardo Villar) a voltar a sambar na pista em vez de só se esconder na galeria e sair de fininho de cena e da vida. Com a palavra. É ao pronunciar ‘covarde’ que ela cutuca com vara curta o tendão de Aquiles  do pé-de-valsa: o orgulho.

 

E ele volta. Não pronuncia palavra. Mas ela, que fala muito, mas não as desperdiça, ensina-me a viver: “Quando a gente ama, tem que dizer.”E ela o diz. Com o corpo, com os olhos, com palavras. Saem sob os aplausos. E o rei do salão dá o exemplo a uma geração que aprendeu a escrever bilhetinhos que são repassados de mesa em mesa pelos garçons.

Só depois eu soube que a cena, que me deixara um gosto agridoce na boca, levou tempos para ser revolvida, com palavras, por Luiz. Os consultores do roteiro não aceitavam como legítimas várias outras cutucadas de Alice em Álvaro. Mas quando a palavra certeira atinge seu orgulho, aí sim se desata o nó górdio da verossimilhança. Palmas para os senhores roteiristas!

 

Enquanto a turma da saudade se esmera no correio elegante, os jovens do salão emudecem, em uma briga de foice para, em vez de comunicar, ferir com palavras.

O dom do verbo foi desaprendido pela chamada nova geração?

 

Esta turma que cresceu ouvindo versos esdrúxulos e as rimas ricas de A Dança da Garrafa, Um Tapinha Não Dói e frases memoráveis do cinema como “I’ll be back’. Luiz, que em vários laboratórios em que pôde discutir seu roteiro com equipes que muito contribuíram, acha que não. Um pouco sim, diria eu.

 

Eudes, o pé-de-valsa tão carinhosamente vivido por Stepan Nercessian, ganha a mocinha Bel (Maria Flor) pelo lirismo. É o trovador diante de seu rival que maneja sem destreza a espada cortante da conversa (a)fiada. Marquinhos (Paulo Vilhena) é um garoto que não sabe expressar  o contentamento (ou não) diante da flor de Maria.  Stepan, que vive (e viveu) um tempo em que uma palavra valia mais que mil gestos agressivos, conduz Bel não só pelos bailes da vida, mas pela descoberta de um lirismo que ela talvez não descobrisse jamais que existia.
Todos dançam e falam muito neste salão. Menos Bel e Marquinhos. Até mesmo quando o fazem, ele dá as costas a ela. Olho no olho. Diálogos dignos de Ingmar  Bergman? Isso é coisa de gente velha. Amam-se, brigam e reconciliam-se em um diálogo monossilábico.
E Eudes chega cheio de repertório. Evoca os deuses do Olimpo que o ajudam a contar o drama de Ciclope, o gigante que possuía um só olho, mas era capaz de enxergar o dia de sua morte. Talvez o drama de Eco, a ninfa que, de tanto falar foi castigada a só repetir o que lhe diziam, seja mais adequado aos nossos tempos.

Fala-se muito. Comunica-se pouco.

Mas é de novo Eudes quem, ironicamente, sem proferir palavra fere Marici (Kássia Kiss), que tudo observa. A namorada, que já está saindo que se chama de flor-da-idade, fala pouco, mas é certeira. E no fim, depois de ver seu pássaro flanar solto pelo salão, resolve perdoar seu trovador (que já havia enfiado o alaúde, ou a viola, no saco) em troca de uma simplória paçoquinha. O nome que estampa o quitute? Amor. Mais doce que a paçoca são as palavras de Eudes. O rouxinol do salão não precisa ser um herói, não precisa ser um menestrel perfeito. Por vezes parece mais um bobo-da-corte. Mas é diante da prosa-e-poesia (ou seria lábia?) deste anjo caído que Marici não cede, mas perdoa. “Você não vale nada, mas eu gosto de você”, diz ela sem abrir a boca, mas mordendo os lábios.

Ao fim, todos subimos na Kombi de Eudes. Pois não é a flor. Mas o perfume do verbo que apaixona neste filme. Saudoso, mas não saudosista. Verbal, mas não verborrágico.

 

Bráulio Mantovani, à época da lendária greve dos roteiristas de Hollywood, disse: Para tudo que é filmado, há alguém que escreveu as cenas. Eu diria mais, há alguém que escreveu a grande maioria dos diálogos. E que, antes disso, pensou cada palavra. Amém! E viva os roteiros com palavras. Muitas! FIM!!!

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