“Chega de Saudade”, por Laís Bodansky
Posted by ac on 31st March 2008
Sempre gostei de dançar.
Sou de uma geração que recuperou o gosto pelos bailes. Peguei uma boa fase onde se dançava brega e forró. Freqüentei muitas casas em que a gente dançava ao som ao vivo de pequenas bandas. Jamais vou esquecer o Panelinha Baiana, onde os garçons que trabalham na Vila Madalena iam dançar às segundas. Descobri esse mesmo frisson nos bailes tradicionais, com repertórios mais variados e bandas sofisticadas.
Antes mesmo do filme “Chega de Saudade” ser um projeto bem definido, uma coisa já era certa para mim: o meu segundo longa-metragem teria o salão de dança como personagem. Mais do que uma locação, o salão União Fraterna, onde o filme foi rodado, em São Paulo, é um personagem de “Chega de Saudade”.
O salão de dança é um mosaico de personagens fantásticos.
O desejo pulsa em cada corpo. O charme e a sensualidade transbordam.
Mas tudo isso esconde sombras de melancolia, solidão, avareza. Enfim, sempre senti nos salões de baile uma metáfora da vida. Meu desafio era tentar fazer um filme aparentemente singelo e despretensioso como nos bailes, mas com a profundidade e os conflitos humanos se revelando lentamente, sem golpes abruptos.
Uma mulher me disse que ao assistir ao filme se sentiu como se tivesse ido ao baile. Que foi como se conhecesse cada um dos personagens, inclusive os menores. E que se sensibilizou com os sentimentos retratados nas pequenas histórias que se desenrolam numa noite de dança. Isso me soou como o maior dos prêmios.
A meu ver, este filme é feminino. Aborda questões universais, mas de um ângulo próprio das mulheres. Você ganha, você perde. E para ganhar, muitas vezes tem de ceder em algo. Neste contexto, existe a verdade da esposa, e a verdade da amante. A razão da casada, e a da solteira. A glória da arrojada e a da tímida. Sem certo e errado.
O que me encanta no povo dos bailes é que eles procuram a chance de terem momentos felizes. Elas têm uma atitude de ir para a rua, de sair do casulo.
“Chega de Saudade” pretende oferecer ao espectador a chance de ser uma mosquinha que pode se aproximar de uma mesa e ouvir segredos ditos ao pé de ouvido, ou a conversa de duas mulheres em frente ao espelho. Ele permite uma gostosa visita ao mundo dos bailes.
Que é uma festa com muitos atrativos e emoções, sensualidade e libido.
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