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“Consultor de Roteiros”, por Marcos Bernstein

Posted by ac on 25th February 2008

Tudo começou em 1996.

Alguns meses do ano já haviam se passado quando escuto a notícia de que o Sundance Institute iria promover com parceiros locais o seu primeiro laboratório de roteiros no Brasil. Fiquei animado. Não acredito em sinais, mas aquilo era um sinal.Isso porque para mim aquele ano havia começado em janeiro, não porque todos os anos começam assim, mas porque naquele mês o roteiro de Central do Brasil, que havíamos escrito ao longo de 95, ganhou um prêmio de apoio à sua realização dado pelo…Sundance Institute (em conjunto com a rede de TV japonesa NHK).

Mais, durante o festival do…Sundance, no qual aquele prêmio foi anunciado, havia sido exibido o único filme produzido até então com meu nome como roteirista,”Terra Estrangeira.”    

 

 

Era muito Sundance junto para ser à toa.

Só tinha um problema. Dois, na verdade. Há basicamente duas posições nas quais você pode ir a um desses laboratórios. Como roteirista ou como consultor. E eu não só não tinha roteiro para inscrever, os dois filmes aí de cima eram os únicos roteiros que tinha feito até então, como pelo mesmo motivo não havia ainda a possibilidade de me chamarem para ser consultor. E, assim, nem tudo iria começar em 1996…

Não fosse o que muitos chamam de perseverança e outros de chatice mesmo.

Consegui o telefone da organização do laboratório e coloquei meu caso: “tinha ganhado um prêmio do Sundance, logo não podia inscrever o tal roteiro, mas tinha muita vontade de conhecer o método, etc., etc. e será que não podia ir como observador, etc., etc., talvez nunca mais  haja essa chance…”. Colou e fui.

Mas, atenção. Como dizem aqueles disclaimers de coisas perigosas exibidas na televisão, “não tentem fazer isso em casa”. Aquele era um ano peculiar. Hoje, esse papo não colaria mais. Aquele era o primeiro laboratório, um laboratório bem peculiar por sinal.

 

*

 

Aconteceu num hotel de luxo numa ilha; patrocinadores chegavam de helicóptero; roteiros eram mais argumentos do que roteiros de verdade, alguns pareciam até sinopses; havia hostess louras e gostosas; traduções de roteiros não ficavam prontas a tempo…Coisas muito pouco parecidas com os Laboratórios do Sundance lá fora e com o que iria se consolidar aqui nos anos seguintes.

Mas o que era parecido, e que é a essência desse modelo, era a forma como se davam as discussões dos roteiros.

Isso estava lá. Ao longo de alguns dias, dez roteiristas (ou mais, dependendo da co-autoria) saem de suas casas para se internar num lugar isolado e lá ter encontros de cerca de duas horas com cinco consultores, sendo parte deles brasileiros e parte estrangeiros. Só isso. E tudo isso.

Não são encontros quaisquer. No mundo do cinema, normalmente quem discute um roteiro com o roteirista tem algum interesse objetivo no projeto. Ou te pagou para escrever aquilo, ou considera te ajudar a achar dinheiro para produzir o filme, ou pensa em investir para distribuir. Ou talvez alguma coisa mais sórdida que não me vem à cabeça agora.

Já nesses laboratórios, os consultores, roteiristas com mais experiências, tendo feito filmes que se destacaram em seus países e em festivais, discutem o roteiro da forma mais honesta possível. Expõem o que pensam sobre o que leram, ou instigam os que estão ali com seus projetos a tentarem explicar ou descrever quais seus anseios quanto ao que escreveram. E, diferentemente dos encontros normais de roteiro, os consultores não tem nenhum interesse objetivo naquele texto. Estão interessados apenas em ajudar aquela pessoa a fazer o melhor roteiro possível. Daí a sinceridade (quase) absoluta.

Parece altruísta e é.

Claro que cada consultor tem sua razão para estar lá. Algumas razões podem ser fugir do isolamento que é escrever, ser bom para o currículo, renovar sua crença na profissão ao ficar uma semana sem falar de captação de recursos, sumir de casa, ajudar… Mas, seja lá qual for a razão, são encontros como nunca se tem a oportunidade de ter no “mundo real”.

Naquele primeiro ano tive também a oportunidade de presenciar um dos grandes mistérios dos laboratórios para os que levam seus roteiros para lá. Todo dia pela manhã, os consultores se reúnem sem os roteiristas e… Bom, isso me traz ao tema desse texto. Ser consultor de laboratórios de roteiro.

Minha carreira como consultor começou dois anos depois, no terceiro laboratório, o segundo conduzido por Carla Esmeralda, que se tornou a grande organizadora desses eventos no país, em suas várias encarnações.

Com o Sundance ou sem ele, como é hoje em dia, de que forma for, lá está ela, bravamente, sempre tentando aprimorar o que já é ótimo.

O pior é que consegue.

Desde então, há exatos dez anos, creio ter sido ao menos quatro vezes consultor no Brasil e mais duas no próprio Sundance em Utah. Já participei de muitas daquelas reuniões.

 

Vamos a elas.

 

*

Por cerca de duas horas cada manhã, os consultores discutem sobre todos os roteiros. A ordem de discussão dos roteiros é aleatória, mas, uma vez começado com um roteiro, segue-se na ordem cronológica dos encontros que irão acontecer, ou que aconteceram.

Aqui cada um coloca suas impressões sobre o que leu. Os outros escutam, apartam e inicia-se uma discussão. Muitos pontos serão em comum. Quando fala um consultor que já teve seu encontro com o roteirista, ele expõe como foi esse encontro, desde os tópicos abordados, como a reação dos roteiristas e eventuais conclusões. Os outros consultores assim começam a entender como deverão proceder na hora em que tiverem suas consultorias, i.e., se seguem a mesma abordagem, adicionando a ela, se toma um rumo completamente diferente, etc.

Isso porque algumas vezes há discordâncias fundamentais de abordagem e interessantes e distintos pontos de vistas se confrontam. Provavelmente, outras vezes, um acha que o outro é meio idiota no seu comentário, olha os créditos do que o cara fez e avalia… Faz parte.

Apesar do altruísmo envolvido na consultoria, há momentos de pura ironia e sarcasmo.

Um bando de roteiristas reunidos significa que em certo momento um pretende ser mais rápido e engraçadinho que o outro. Infeliz do roteiro vítima do ataque. Normalmente uma vez a cada laboratório, temos uma crise coletiva diante de um roteiro que não entendemos ter sido selecionado. Claro que deixamos de lado o fato de que muitas das vezes nós mesmos selecionamos a obra-prima.

Provavelmente esses momentos existem como defesa para superarmos certas porcarias que nós mesmos acabamos escrevendo. Há algo pior no mundo. Mas esses são poucos e raros momentos. Talvez catarses. Felizmente não são gravadas e nunca saem dali. Fato é que quase que 100% do tempo a reunião é uma tentativa intensa de achar a melhor e mais eficiente maneira de ajudar os roteiristas.

Como consultoria é obviamente feita por consultores, vale falar um pouco deles. Após esses anos e tantas reuniões é possível traçar certos perfis. Ou arquétipos como é moda falar no jargão roteirístico.

Tem o mordaz, virulento, impiedoso em suas certezas. Tem o emotivo, que está sempre pronto a aprender com os roteiristas. Tem o óbvio, que como o próprio nome diz costuma desfilar clichês. Tem o empolgado, que acredita na vocação sagrada de contar histórias e que te faz ter vontade de sair correndo para escrever algo de valor…ou simplesmente sair correndo. Tem o bom ouvinte, psicólogo, que está lá para escutar os roteiristas e eventualmente lança algo. Tem o que tem certeza de que faria aquele roteiro melhor e traz várias idéias que os roteiristas deveriam seguir se fossem minimamente inteligentes…

Bom, talvez tenha de tudo. Eu mesmo creio já ter sido um pouco de todos em cada laboratório, dia a dia, a cada encontro. O que nos leva ao objetivo desses laboratórios.

 

O encontro, cara a cara, com os sujeitos que escreveram aqueles roteiros.

 

 

Os encontros são sempre um mistério, uma surpresa.

 

 

Além das expectativas baseadas na sua apreciação dos roteiros envolvidos, no primeiro dia há o completo desconhecimento de quem são essas pessoas. Nos dias seguintes há expectativas baseadas em conversas informais e nas informações trocadas nas reuniões de consultores. Começam a delinear-se os tipos: o roteirista que escuta tudo com atenção e nunca se manifesta, deixando o consultor na dúvida se está agradando ou se o outro o acha um imbecil; tem o arrogante que te acha sem sombra de dúvidas um idiota; tem o inseguro que acha que tudo está mesmo uma droga no que escreveu; tem o que foi com roteiro pronto e está lá só para confirmar isso; tem o que nunca tinha feito um roteiro e quer aprender o básico; tem os que aproveitam cada segundo, mesmo que não venham a utilizar muito do que foi dito…

Mas, o instigante, é que muitas vezes os que deveriam ser os melhores encontros, são os piores e aqueles encontros que você imaginava que seriam sensacionais se tornam um fracasso. Às vezes você odeia um roteiro, mas acaba encontrando um canal de trocas interessantes. Noutras, você adora o roteiro e se vê sem ter o que dizer além de que gosta de tudo o que o roteirista escreveu, mesmo coisas que o próprio sujeito tem dúvidas quanto a sua qualidade. E fora esses encontros?

 

Nas horas vagas, vemos e debatemos os filmes uns dos outros, falamos de dramaturgia, de visões de cinema, da vida.

 

Conhecemos outros roteiristas e nos lamuriamos de nossa profissão, o que de certo modo acabou viabilizando a criação de uma associação como a nossa, saída de tantas conversas tidas ali.

 

Enfim, acho que essa é a mecânica da consultoria.

 

Mas qual é realmente o papel do consultor?

Acho que é ser um pouco de tudo que disse acima: provocador, mordaz, emotivo, empolgado, às vezes óbvio, psicólogo. É pensar que aquela é uma oportunidade única de ajudar o cineasta, chamado roteirista, que está ali diante de você a fazer o filme que ele imaginou fazer, seja ele o diretor do projeto ou não. É descobrir o que motivou aquela pessoa a estar ali e tentar ajudá-la, dentro de suas próprias regras, concordemos com elas ou não, gostemos ou não de suas idéias, a concretizar da melhor e mais precisa maneira possível seu sonho, sua visão daquele filme…

E assim eu termino como um “empolgado”.

Saiam correndo.

 

 

Fotos do Laboratório Sesc-Rio de Roteiros 2007 por Carolina Kotscho.

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