Dia 1, Terça -feira: Calmaria, com previsão de mudança de tempo.
Os consultores trabalharam bastante nesse primeiro dia, mas para nós, roteiristas selecionados, a terça-feira foi basicamente um reconhecimento de terreno: malas no quarto, roupas no armário, aqui é o restaurante, ali a sala de reuniões. Eu já havia estado no Sesc Nogueira para o Laboratório de Roteiros de Cinema Infantil, em 2004, mas entre uma edição e outra muita coisa mudou. Os quartos foram reformados e estão mais confortáveis, a comida ainda mais caprichada. Me pergunto como será a experiência dessa vez.
Quem eu era, há três anos? Quem sou agora?
Acho que, apesar da reforma visível do alojamento, quem realmente mudou fui eu.

Bem, mudei, mas nem tanto. À tarde, na reunião de apresentação do grupo, onde cada um diz quem é e que projeto o levou até ali, por pouco não emudeci. A velha timidez de sempre deu as caras. Afinal, não escapei: “Eu sou Maria Camargo, meu roteiro se chama ‘A Mergulhadora’ e é uma biografia da psiquiatra Nise da Silveira”.
Nise (+)

Jung
Dito isto, voltamos à mesa para o jantar (come-se o tempo todo, no laboratório). De sobremesa, a projeção do filme “Vermelho como o Céu”, de Cristiano Bortoni, um dos consultores.
Depois de debater o filme, ficamos por ali mais um pouco, ansiando por um álcool que nos preparasse para uma boa noite de sono e para uma quarta-feira intensa. Não havia, e ficamos bebendo xícaras de Nescau de pé, como quem toma um chopinho.
É claro que não funcionou.

A noite do Nescau, como não podia deixar de ser, acabou cedo, mas cheia de expectativas: “A Mergulhadora”, roteiro cheio de necessidades e imperfeições, aguarda impassível sobre a mesa de cabeceira.
Dia 2, Quarta-feira: Tempo instável, ondas altas. Teste de fôlego e sobrevivência em alto-mar.
Consultores: Enrique Bellande (Argentina) e…
Melanie Dimantas (Brasil)
O farto café da manhã foi introdução elementar para a manhã ensolarada em que, sentada numa bucólica mesinha à beira da piscina, apanhei de um argentino. E dessa vez não foi do meu analista, que compartilha a nacionalidade com Enrique Bellande. Nossos vizinhos continentais não são conhecidos pela delicadeza, e eu mais uma vez me lembrei por que.
Enrique tem punhos de aço e nenhuma papa na língua, provoca como ninguém, mas também me faz lembrar porque continuamos visitando Buenos Aires, lendo literatura argentina, comendo bife de chorizo e insistindo na rixa: eles sabem o que fazem.
Ele apontou algumas falhas evidentes do roteiro (para quem olha de fora, é claro), outras mais sutis, e assim me ajudou a enxergá-las mais claramente. Basicamente: o fato de que minha matéria prima é feita de fatos e personagens reais me manteve atada demais à realidade. É preciso mentir. Mentir mais, muito mais, me aconselhou o argentino documentarista. O que parece ser um paradoxo, torna-se ainda mais radical quando consigo formular: para ser mais verdadeira e mais fiel aos meus personagens, preciso mentir mais. Quanto mais mentira, mais verdade.
Depois do almoço, Melanie soprou um pouco minhas feridas.
Não que ela tenha aliviado muito o roteiro, mas a aparência de uma conversa de comadres amenizou a consultoria da tarde.Ela compartilhou a opinião de Enrique: preciso voar mais, mesmo com as limitações inevitáveis do projeto.



Como conciliar as opiniões dos consultores (com as quais concordo), o desejo do diretor do filme (dono do projeto, portanto), a fidelidade à mulher sensacional que foi Nise da Silveira e o meu próprio olhar? Talvez eu deva começar por onde acabei a frase anterior: que olhar é o meu?
Aproveitando a deixa, miro o horizonte, onde nuvens pesadas anunciam tempestade. Me lembro daquele casal de mergulhadores paulistas que estava no fundo do mar da Tailândia quando uma onda gigante passou sobre eles. Quando voltaram à superfície, a tsunami tinha destruído tudo e a cidade não existia mais. Eles, que estavam nas profundezas, restaram ilesos.
Talvez a salvação, como disse Nise da Silveira, seja mesmo vestir um escafandro e descer ao fundo do mar.

Durante a noite, depois da projeção de “O Ano em que meus pais saíram de férias” e do debate com o Cláudio Galperin (que fez até a tradutora chorar), o friozinho da serra de Petrópolis entra pela janela e aos poucos transforma-se em maresia.

Sonho com o mar, com um mergulho possível.
Dia 3, Quinta-feira: Céu azul, sol intenso e águas acolhedoras.
Consultores: Cláudio Galperin (Brasil), Maria Amparo Escandón (México)
Ter o Cláudio como consultor é um privilégio que não tinha me saído da memória desde o laboratório de 2004.
Hoje, tive a sorte de poder contar, mais uma vez, com seu olhar agudo e generoso.
Assim como Enrique e Melanie, ele insistiu na necessidade de me libertar dos fatos e da personagem “real”. Discutimos, entre outras coisas, questões valiosas para a elaboração de um roteiro: pontos de vista e suas implicações, desenvolvimento de personagens, a relação entre realidade e ficção, o processo criativo, e até o uso mais esperto do final draft. No final das contas, ouvir críticas construtivas, da forma mais delicada possível, foi como imergir em água morna e confortável.
Depois do almoço relâmpago (e delicioso, mais uma vez), meu encontro foi com a mexicana Maria Amparo Escandón. Ela não fugiu à regra que se insinua até aqui: insistiu na necessidade de “ficcionalização” dos fatos - pois estes já tenho bem claros e dominados.
Maria Amparo criou até uma espécie de gráfico para me ajudar a enxergar caminhos. É curioso notar como a coincidência de diagnósticos não impede que a abordagem de cada consultor e suas sugestões para solucionar os problemas sejam radicalmente diferentes. Talvez essa seja uma das maiores riquezas do laboratório.
Houve a projeção de “Santitos”, um debate com Maria Amparo, uma breve fuga pela estrada em busca das famosas empadas de Nogueira (cuja fama é mais do que merecida) e ainda um restinho de consultoria com o Enrique, pois ainda não havíamos conseguido dar conta de todo o roteiro. Não que eu goste de apanhar, mas não dava para desperdiçar a sua disponibilidade e, muito menos, sua perspicácia.
No fim do dia meus filhos telefonaram, saudosos. Contaram novidades e me lembraram de que no Rio de Janeiro a vida continua, com compromissos acumulando-se em velocidade vertiginosa. Há tanto o que fazer, tanto o que escrever, mas também uma certa nostalgia antecipada. Os dias na serra, tão intensos, passaram rápido demais.
Como foi nossa última noite em Nogueira, Carla Esmeralda e Carolina Kotcho nos presentearam com uma inacreditável mesa de quitutes de botequim e, é claro, bem-vindas caipirinhas. (Nescau, nunca mais!).
Carla
Carol
A trilha sonora também teve um quê de inacreditável, comportando até uma canja da Marta Moreira Lima, uma das tradutoras, cantando Kurt Weill em alemão. O “Get together” aqueceu a noite na serra e os últimos remanescentes voltaram para o quarto às quatro da manhã. Eu estava entre eles, tonta, mas não por causa do álcool, e sim pelas tantas perguntas disparadas sobre o meu roteiro, sobre o meu ofício, sobre as minhas escolhas.
Me lembro da frase de Manoel de Barros, que por ironia tenho impressa e colada no computador: “Tudo o que não invento é falso”. Por que caminhos me perdi e me esqueci dela? O que penso agora sobre o que escrevi? Minha embriaguez ainda não me deixa ver claramente, mas sinto que a reflexão que se inicia aqui é um caminho sem volta.
Para onde irei? Iremos?
Dia 4, Sexta-feira: Mergulho em águas profundas, onde o inesperado acontece (”Time to Cry”)
Consultor: Scott Williams (USA)
Em meio à tarde ensolarada, enquanto o ônibus carregado de malas se prepara para deixar Nogueira, tenho muita dificuldade para segurar lágrimas insistentes. Me despedir do Scott é especialmente emocionante. Horas antes compartilháramos muitas dessas lágrimas numa consultoria incrível, surpreendente.
Ela começou mais ou menos como as outras mas, quinze minutos depois, numa frase, tudo mudou. “Existem dias bons e dias ruins”, disse Scott, referindo-se ao cotidiano de um hospital psiquiátrico, onde se passa minha história. “E, se você tiver sorte, muita sorte, haverá mais dias bons do que dias ruins”.
Daí em diante, compartilhando experiências pessoais relacionadas ao tema, choramos ao mesmo tempo ou alternadamente boa parte das duas horas que passamos juntos. Se no laboratório houve um clímax, foi aí que ele aconteceu.
Lembrei de histórias pessoais que insistia em esquecer, chorei lembranças que pensei haver deixado para trás. Além das limitações impostas pelo tema, pela realidade, pela própria natureza da escrita de um roteiro, finalmente encarei as minhas próprias limitações. “Você não correu riscos como roteirista. Não como os riscos que Nise correu como psiquiatra”. Sim, sim, sim, Scott. E mais um pouco de choro pois, afinal, quem está no mar é para se molhar.
Um mergulho, finalmente? Será que vou conseguir ficar tanto tempo sem respirar? Será?
Uma hora e meia de caminhada morro acima; o almoço que ficou entalado na garganta; a reunião de despedida onde, dessa vez mais justificadamente, não consegui falar pois minha voz embargada denunciava tudo; e agora estamos todos preparando-nos para partir. Na minha bagagem, muito mais perguntas do que respostas, mas pelo menos uma certeza: a experiência no laboratório ultrapassa, e muito, os benefícios possíveis para o roteiro selecionado. É um presente com validade indeterminada, que iluminará todas as histórias que vierem a cruzar o caminho. No meu caso, houve ainda o bônus totalmente inesperado de viver uma experiência pessoal transformadora.
A estrada sinuosa que desce a serra vai em direção ao Rio de Janeiro, mas não sei ainda aonde vai me levar. Quem sabe a lugarejos de acesso complicado, mas cuja beleza faz com que todo o percurso se justifique. Ou talvez, finalmente, às águas profundas onde a tsunami não ameaça nem destrói, mas transforma.

