“Plot Point”, por Alessandro Giannini
Posted by ac on 25th February 2008
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Caros amigos e amigas roteiristas,
O amigo Di Moretti pediu que eu escrevesse um texto para ser publicado no recém-criado site da Autores de Cinema.
Primeiro, pensei em escrever algo bem formal, uma espécie de “pensata” sobre como via o trabalho do roteirista no Brasil. Depois, pensei no que disse o Serge Toubiana, em entrevista à minha amiga Ana Paula Sousa, da Carta Capital, título com o qual também colaboro. Toubiana, diretor de redação da Cahiers du Cinema, que escreveu a mais abrangente biografia de François Truffaut, disse que, por conta da evolução do cinema, das mudanças na mídia e o aparecimento da internet, a relação dos críticos com os filmes e os espectadores também deveria mudar, deveria ser mais lúdica e menos sisuda. Foi por essa associação livre de idéias que resolvi escrever uma espécie de carta para dizer por que admiro muito o trabalho do roteirista brasileiro - assim mesmo, “roteirista brasileiro”, porque tem essa especificidade.
Antes de tudo, no entanto, quero contar pequenas histórias. Sou jornalista por acaso. Meu pai, um italiano que teria 86 anos de idade se estivesse vivo, era hoteleiro na Itália e, quando veio para o Brasil, estabeleceu-se no comércio de peças para motocicletas. Minha mãe, a dona Vera, 78 anos, sempre foi uma árdua dona-de-casa. Foram eles que me ensinaram a gostar de filmes. Não era paixão de cinéfilo pela sala escura, mas a paixão pela viagem que proporcionavam aquelas histórias todas. Assim, posso dizer, que devo muito ao velho Giannini (dono absoluto do único controle remoto de casa) e ao Paulo Perdigão (programador de filmes da Rede Globo) o despertar dessa minha relação com o cinema e com os filmes.
Desde muito cedo, também, lia jornal, lia muito. O Estadão, desde sempre, e a Folha, ocasionalmente, quando meu pai resolvia dar uma variada na assinatura. Às segundas, era sagrado o Jornal da Tarde, com a edição de esportes. Eu, como era meio “diferentão”, comprava também às sextas, quando saíam as críticas do Edmar Pereira. Ficava embevecido com os textos. E nem imaginava que viria a ser seu colega e o sucederia anos mais tarde, quando ele morreu em conseqüência da Aids. Colava os textos do Edmar, do Rubens Ewald, da Póla Vartuck e de outros críticos - em um caderno que levava para cima e para baixo. Devo a esses críticos a minha paixão pela leitura, pelo olhar diferenciado.
Quando chegou a hora de escolher, coloquei na cabeça: queria fazer cinema. Dizia isso para todo mundo e todo mundo me olhava como se eu estivesse brincando ou dizendo uma grande bobagem. Fui pesquisar e descobri que só tinha dois cursos de cinema no Brasil, o da ECA e o da FAAP, mas só o da USP era gratuito. Outra descoberta terrível: o vestibular disponibilizava apenas quinze vagas, tão concorridas quanto as do curso de medicina. Depois de muito pensar, decidi que se não entrasse no curso de cinema, faria jornalismo e escreveria sobre filmes. Dito e feito: fiquei em 25º. lugar na lista dos 52 candidatos que concorriam às vagas de cinema - muito abaixo dos quinze consagrados.
Conto todos esses pedaços da minha história para dizer que percorri uma trilha da qual muito me orgulho. E nunca desisti de tentar retomar o sonho antigo que é o de fazer parte desse clube seleto de cineastas. Uma vez, Luiz Carlos Merten, do Estadão, disse para mim que gostava mesmo disso: ver o filme e escrever sobre ele; entrevistar pessoas e escrever sobre elas.
“Não, Gia, nunca pensei em escrever roteiro ou dirigir filme, eu gosto é disso”, completou ele, com os braços no ar, como só foi acontecer.
“Eu gosto mesmo é de escrever.”
Acho que, de certa maneira, nunca me esqueci disso porque na minha cabeça também fui inspirado pelo que meu amigo Merten me disse. Quero justamente o contrário, quero contar as minhas próprias histórias. Quero muito mais. Tudo isso para dizer que, com certeza, farei o caminho de volta ao cinema. Só que aquele sonho de dirigir e me tornar um grande cineasta foi substituído por outro, de escrever roteiros e contar histórias.
Depois de fazer muitas visitas a sets, aqui no Brasil e no exterior, e ver a modorra que é a rotina de uma equipe de filmagem, decidi que escrever seria um ótimo caminho para seguir no cinema. Um caminho muito melhor do que ser diretor ou técnico, funções com as quais cheguei à conclusão de que não tenho a menor identificação.
Faz tempo que, secretamente, cultivo esse sonho de escrever roteiros. Já li de Doc Comparato a Jean-Claude Carrière, passando por Syd Field, Vogler e outros mágicos dos manuais do roteiro. E, não é apenas por identificação, já que sou um jornalista da escrita. É porque acho um terreno muito mais fértil do que qualquer outro, muito mais rico e mais cheio de possibilidades - bem mais do que o imagético, por exemplo.
Carrière
Faz muito tempo dizia-se que um dos grandes problemas do cinema brasileiro era a falta de bons roteiristas. Claro que esse foi um preconceito alçado à condição de verdade absoluta que se cristalizou nos textos e nas bocas de gente ignorante.
Hoje, o time brasileiro de roteiristas tem atletas de primeira grandeza.
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