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Realidade, Documentário e Ficção (ou “Sobre Autores de Cinema”), por Carolina Kotscho

Posted by ac on 20th December 2007

 

Muitas vezes é difícil traçar a linha que separa ficção e realidade.

O filme “Tropa de Elite”, por exemplo, gerou discussões apaixonadas por tratar de um problema real e crônico do país. Por esse motivo, críticos bem formados e pessoas esclarecidas insistem em chamar o filme dirigido por José Padilha de documentário.

 

Mas Wagner Moura é ator, nasceu na Bahia e nunca matou ninguém. O capitão Nascimento, portanto, não é real.

 

 

Ele é uma criação dos roteiristas do filme e foi muito bem interpretado. Mas existe gente como ele? Infelizmente existe, o que não quer dizer que o que está na tela é toda a verdade. “Tropa de Elite” é uma obra cinematográfica inspirada em fatos e realizada por autores competentes, não fascistas. “Tropa de Elite” é ficção.

 

Padilha trabalhou, como eu, muitos anos com documentários para TV e cinema antes de fazer o filme. Isso, neste caso, pode ser a base da confusão. Mas, ao contrário de “Tropa de Elite”, um documentário apresenta fatos e temas com imagens e pessoas da vida real. Ainda assim, o documentário é um trabalho de autor e não pode ser tratado como representação absoluta da verdade. Mesmo um filme sério, com anos de pesquisa e as melhores intenções, só é capaz de apresentar uma versão, um registro, um recorte do mundo em que vivemos.

A loucura é tão grande que Padilha e os roteiristas Bráulio Mantovani e Rodrigo Pimentel estão sendo acusados por ONGs de prejudicar injustamente sua imagem com um exemplo leviano, já foram chamados de nazistas por estudantes que compram maconha e não querem ser tratados como culpados do problema da segurança pública no Rio de Janeiro, podem responder processo por dizer que a polícia é corrupta e pratica tortura e as universidades chamam de “estereótipo, absurdo e distorção” seu papel no filme.

Os autores do filme nunca disseram, em momento algum, que todas as ONGs são levianas, que todos os estudantes consomem drogas, que todos aqueles que consomem drogas devem ser responsabilizados e punidos, que todos os policiais são torturadores ou corruptos e que todas as universidades são coniventes com o tráfico. Os roteiristas, com base em pesquisa, escolheram um tema e criaram personagens para retratar um conflito real de um ponto de vista que lhes pareceu original e interessante. Que bom. “Tropa de Elite” seria um filme chatíssimo se tratasse apenas de ONGs eficientes, estudantes esclarecidos, traficantes arrependidos e policiais com “consciência social”.  O que não quer dizer que estes exemplos não existam. Mas, como bons cineastas, os criadores do capitão Nascimento sabem que sem conflito não há drama e sem drama ninguém é capaz de fazer um bom filme.

Mas não é só no cinema que é difícil separar ficção e realidade.

Tive uma experiência muito forte com a família Camargo ao longo dos últimos cinco anos. São mais de sessenta horas de entrevistas gravadas com seu Francisco, dona Helena e os oito filhos ainda vivos do casal. São dez pessoas da mesma família que descreveram para mim os mesmos fatos que marcaram suas vidas. Mesmo assim, tenho dez histórias muito diferentes nas três mil páginas de conversas transcritas, estudadas e traduzidas em filme e livro. O que no meio de tudo isso é verdade? E quem sou eu para afirmar o que é ou não verdade na vida dessas pessoas?

 

Por isso é assustadora a responsabilidade de transformar a vida de alguém em filme.

 

Em “2 Filhos de Francisco” ainda trabalhávamos com o agravante de expor a vida de pessoas de carne e osso que estão vivas e vivem do seu trabalho artístico e da sua imagem pública. Até as coisas mais absurdas que aparecem no filme - como, por exemplo, um pai fazer duas crianças comerem ovo cru para melhorar a voz -  realmente aconteceram. A história deles retratada na tela é verdadeira, mas o filme é ficção.

Mas é ou não é a história deles? É.

 

 

 

Mas não é uma cópia fiel da realidade. Acho que isso fica mais claro quando revelo que o texto de Dira Paes interpretando dona Helena depois da morte do filho Emival é a frase de uma carta que minha mãe, “dona Mara”, me entregou depois de uma briga: “Se eu errei, foi tentando acertar”. O fato e o sentimento retratados no filme são verdadeiros. Mas a frase é da minha mãe, foi escrita no roteiro por mim e interpretada por uma atriz. O que o público viu não é exatamente o luto de dona Helena, é uma cena criada em roteiro e produzida com direção, fotografia, figurino, arte e montagem. O que vai para a tela é cinema, nunca é a reprodução fiel da verdade.

Um bom exemplo da confusão entre ficção e realidade em “2 Filhos de Francisco” é uma cena em que Mirosmar vê a irmã com fome e a mãe chorando de desespero. Ele chama o irmão Emival e os dois ganham alguns trocados cantando na rodoviária. Zezé lembra de ter apanhado muito do pai nesse dia, pois seu Francisco achou que os meninos tivessem roubado o dinheiro. Seu Francisco, tantos anos depois, diz que ficou muito emocionado naquele dia com a conquista dos filhos. Nega ter batido nas crianças e fica profundamente magoado de saber que Zezé conta essa história de outro jeito.

Jamais vamos saber o que de fato aconteceu naquele dia. Para o filme, não importa. A versão do Zezé foi escolhida arbitrariamente por nós por apresentar mais conflitos e está no roteiro original. A cena foi produzida, mas não entrou no corte final. Virou extra do DVD. A seqüência era forte demais, para muitas pessoas transformava nosso herói em louco e essa percepção atrapalhava a dramaturgia.

O filme conta a história dos Camargo ao longo de quarenta anos. Mas um filme tem apenas duas horas e uma única versão. Isso quer dizer que, como essa, tivemos que fazer muitas escolhas, muitos cortes, muitas adaptações. Escolhemos contar ali apenas a história do sonho de um pai. E tivemos que usar versões da verdade, meias verdades ou mentiras inteiras para atingir nosso objetivo. No cinema, chamamos “versões da verdade”, “meias verdades” e “mentiras inteiras” de ficção.

No filme não cabia o tapa de Francisco em Mirosmar no dia da rodoviária, assim como também não cabia uma série de outros eventos dramáticos da vida sofrida e miserável que eles tiveram. Seria insuportável na tela grande.

 

Quando o filme acaba, eles venderam um milhão de discos e foram felizes para sempre. Mas não é verdade, a história real continua e no filme também não cabia o drama da vida cheia de contradições e conflitos gerados pelo sucesso. O lado negro da realização de um sonho: a depressão, as brigas, o seqüestro de um filho.

 

Por isso decidi fazer um livro.

 

 

Brinco dizendo que o filme é apenas o trailer do novo trabalho, lançado em março deste ano. É quase nada comparado à inacreditável história de vida dessas pessoas. E, de novo, tudo que está no livro realmente aconteceu. Mas, mesmo podendo ter ido tão longe com as palavras, não é tudo nem exatamente o que aconteceu com eles.

No livro “Simplesmente Helena”, em que conto toda a história desta família na primeira pessoa - como se fosse dona Helena, a mãe dos filhos de Francisco - tentei respeitar as verdades de cada um. Na página 131, quando escrevo sobre o episódio da rodoviária, dou as duas versões acima e termino dizendo: “A vida da gente é assim, cada um guarda do jeito que pode. Ou como quer. Não é por maldade, mas cada um vive as coisas da sua maneira e aquilo vai ficando longe na memória da gente. São muitas as verdades na vida de uma família grande como a nossa”. A conclusão é minha, mas as palavras, no livro, são de dona Helena. De novo, isso gera confusão.

Apesar de ser uma obra classificada pelos editores - depois de muitas dúvidas e discussões - como “não-ficção”, o livro, como já disse, é escrito por mim, na primeira pessoa, como se fosse dona Helena narrando a história da família. Fiz de tudo para parecer que é mesmo ela quem está conversando com o leitor, apesar de revelar ali coisas que a própria personagem só soube por mim. E mesmo tendo sido absolutamente fiel aos fatos levantados na pesquisa, sei que o que está escrito naquelas 288 páginas é a minha interpretação dessa história. Meu livro é verdadeiro, mas não é a vida da família Camargo: é uma obra literária.

Ou um “romance sem ficção”, como Truman Capote costumava definir “A Sangue Frio”.

 

Não importa o nome que se dê a isso, a lei reconhece que, assim como um documentário, o que fiz é uma obra de autor.

Tenho a alegria de poder escolher os trabalhos que faço e só consigo embarcar em um projeto quando me apaixono pela história. Já fui chamada de louca, por roteiristas que admiro, por topar o desafio de lidar com pessoas de verdade para fazer ficção no cinema. O que mais assusta, me disseram, é justamente encontrar o limite entre a vida e a tela.

O segredo, para mim, está no respeito com as duas coisas: com a ficção e com a realidade. Alguém que se dispõe a expor todas as suas dores e dividir sua história com o público merece, de cara, minha admiração e meu carinho por tanta coragem e generosidade. Vou, invariavelmente, me preocupar com essa pessoa e cuidar para que ela se sinta bem com o meu trabalho.

Mas no cinema a vida é só inspiração, não é espelho. Sempre. Ser honesto e deixar essa premissa muito clara tanto para quem viveu a história quanto para quem vai vê-la na tela é o passo mais importante. E abrir mão de algumas verdades em favor da obra é condição básica para fazer um bom trabalho. Como autores  - no cinema ou na literatura - precisamos ter liberdade para criar. Só assim seremos capazes de contar uma boa história dentro dos limites impostos por cada meio.

“Tropa de Elite” e “2 Filhos de Francisco” não são a verdade. Mas são bons filmes. Por motivos diferentes tocaram profundamente as pessoas e por isso foram vistos e comentados por tanta gente. Não sei se fomos mais felizes ao usar elementos da realidade para contar uma boa história de ficção, ou ao usar recursos de ficção para expor histórias da vida real. Não importa, é cinema.

Que um filme gere discussões apaixonadas, para o bem e para o mal, é sempre bem vindo. Que o cinema nos ajude a entender o mundo, a sociedade e a vida através da ficção é muito bom para todo mundo. Mas é fundamental que o limite entre uma coisa e a outra fique sempre muito claro: o que está na tela, mesmo baseado em fatos, é a criação de alguém. De um autor, ou de um grupo de autores de cinema.

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