“Roteirista-diretor, Diretor-roteirista: o incrível homem de duas cabeças”, por Paulo Halm
Posted by ac on 20th December 2007
Se tem uma coisa que me irrita é quando alguém me chama de escritor. Ainda mais quando é alguém de cinema. Sou um cineasta ou, se preferirem, um técnico em cinema especializado em roteiro. Não me considero escritor, pelo menos não quando estou trabalhando para cinema. Me incomoda que diretores de fotografia, editores, técnicos de som, produtores, etc, sejam considerados cineastas e o roteirista seja considerado uma espécie de “invasor”, um estranho no ninho, como se seu trabalho não fosse parte fundamental e intrínseca da produção de um filme. Não tenho nada contra escritores, romancistas, poetas, dramaturgos, profissionais e artistas que vivem da palavra escrita, mas não acho que o roteirista, por mais que empregue o texto como matéria prima de seu trabalho, esteja fazendo literatura. Está fazendo cinema. Portanto, é um cineasta.
Depois de mais de 20 anos trabalhando em cinema, dividido entre roteiro e a direção, é isso o que sou: um cineasta. Ainda que, na maioria das vezes, meus filmes não passem de folhas de papel.
Todo esse prólogo embebido em fel poderia ser descartado não fosse eu um sujeito extremamente paranóico e rancoroso. E terrivelmente rabugento. Fosse um sujeito mais afável (melhor dizendo, fosse um escritor), começaria este texto de forma mais delicada, aos moldes de Charles Dickens falando que desde a minha mais tenra juventude, ainda estudante secundarista naquele colégio público de subúrbio carioca, quando tive meu primeiro contato com o cinema, me interessei tanto pela escritura dos filmes quanto por sua realização.
Não que eu não tivesse visto filmes antes dos 15 anos. Não tenho uma biografia tão interessante como a do Paul Schrader que, oriundo de uma família calvinista austera, só viu um filme aos 18 anos de idade e que, depois do choque inicial, acabaria tornando-se não só um dos maiores roteiristas do cinema americano ( vide “Taxi Driver” e “Touro Indomável” ) como um diretor no mínimo interessante ( “Mishima - uma vida em três tempos”, “A Marca da Pantera”, “Hard-Core - o submundo do sexo”, entre outros ).
Mas foi a partir dos quinze anos que deixei de encarar o cinema apenas como um espectador e passei a atuar numa das áreas da “indústria cinematográfica” - no caso, a exibição. Foi nessa época, 76, 77, não lembro direito, que criamos na escola um cineclube e através dele, comecei de fato a conhecer o cinema brasileiro.
Acho que é uma experiência comum a qualquer garoto que não seja bom de bola ou não tenha nenhuma aptidão física para os esportes. Se quiser ter um mínimo de destaque no meio da massa de adolescentes uniformizados e espinhentos, particularmente, com as meninas, só resta trilhar os caminhos da sensibilidade ou da política estudantil. Foi por onde eu fui.
Passei por todo o itinerário ou via crucis daqueles que não conseguem levantar a pança para fazer sequer um abdominal nem tem a menor intimidade com a bola: fiz parte do grêmio, escrevi o jornal da escola, cometi minhas poesias, fiz parte do grupo do teatro. Só escapei do coral da escola porque, além de perna de pau, tenho uma voz de taquara rachada. Mas nessa busca por um lugar ao sol no panteão dos alunos interessantes ( aos olhos das meninas, sempre elas ) acabei, junto com outros colegas de desdita, encontrando no depósito da escola um projetor de cinema 16mm, novinho, ainda embrulhado, abandonado ali por falta de quem se interessasse em explorá-lo. Foi ali que nasceu a idéia de criarmos o cineclube e minha vida mudou.
Durante os dois anos que participei do cineclube tive acesso a filmes que jamais imaginei existirem. Acreditem: naquela época a Embrafilme ( lembram-se dela? ) dispunha de uma filmoteca com centenas de filmes em 16mm, alguns deles filmes que sequer passavam no circuito comercial, por problemas de censura.
Uma das coisas legais desse período foi ter feito um curso promovido pela Embrafilme para formação de cineclubistas, onde tivemos aulas com o saudoso Djean Magno Pelegrini sobre o cinema brasileiro, e pude ver desde Humberto Mauro ( e me impressionar com a cena das enxadas “eisenteinianas” de “O Canto da Saudade” ), passando por Glauber Rocha, Nelson, Leon Hirszman, Cacá e mesmo Julio Bressane.
Lembro que quando passamos “Matou a Família e Foi o Cinema” na escola quase fomos suspensos, afinal, estávamos ainda sob a ditadura militar e numa escola publica sempre havia uma coordenadora qualquer que era, nas horas vagas, agente do DOPS e defensora dos valores morais e cristãos ).
Por conta dessa experiência como cineclubista que decidi fazer a maior loucura da minha vida (se é que existe alguma loucura muito grande aos 17 anos) - tentar o vestibular pra cinema, na UFF.
Fiz e passei. De cineclubista, passei a estudante de cinema, olha só que evolução. Em menos de um ano na faculdade, já estava rodando o meu primeiro curtinha: um super-8 chamado “Robinson Crusoé”, uma versão underground do clássico de Daniel Defoe, filmado nas praias poluídas de Niterói.
Foi aí que os caminhos se bifurcaram. Escrever eu sempre escrevi. Aquelas coisas de adolescente mais ou menos sensível: poesias, crônicas, contos, até mesmo peças de teatro, na época do grupo de teatro secundarista. Mas antes de escrever, eu fazia quadrinhos. Sempre desenhei e sempre fiz meus próprios gibis. O cinema apareceu como uma forma de unir o texto à imagem, acrescido de algo até então impossível: o movimento.
Foi na faculdade que decidi que queria fazer da vida: dirigir filmes - o que não é nada original, afinal, 99% dos alunos dos cursos de cinema querem ser diretores. Saí da faculdade com uns três ou quarto curtas dirigidos ou co-dirigidos, alguns deles premiados, e com uma reputação duvidosa de que tinha jeito pra coisa.
Mas uma coisa é fazer filmes na faculdade, outra é fazer cinema profissionalmente.
Fora da universidade, onde seus filmes são pagos pela instituição ( pelo menos era assim na minha época, acho que hoje é bem diferente), os filmes são coisas caríssimas, orçamentos elevados, com recursos obtidos única e exclusivamente através de financiamentos públicos, por via de concursos e editais que são sempre uma loteria na qual seu bilhete nunca é sorteado.
Como não tinha e nunca tive nada do que periquito roa, o jeito pra continuar fazendo cinema foi trabalhar nas oportunidades que aparecessem. Então tive que colocar minha vontade de dirigir filmes numa gaveta qualquer do coração e fui à luta: fui desde contra-regra a assistente de direção, passando obviamente pelo martírio de trabalhar algumas vezes em produção ( além de perna de pau, nunca fui muito bom em gincanas, de modo que minhas experiências em produção nunca foram muito bem sucedidas ). Como não conseguia dirigir filmes, passei a escrevê-los, na esperança de um dia conseguir tirá-los do papel. Pilhas de roteiro foram se avolumando até que, cansado de escrever para mim mesmo, resolvi mostrar aqueles “filmes de papel” para alguém. Foi aí que alguém, acho que o Joffily ou então o Durán, ou ambos, perceberam que eu tinha jeito para a coisa.
Foi aí que o aspirante a diretor virou roteirista profissional.
![]()
De lá pra cá, fui alternando sempre que pude, entre a escritura de roteiros e a direção de filmes. A maioria dos meus filmes eu fiz com prêmios de produção, nem sempre compatíveis com o valor real do orçamento, ou seja: acabei tirando do meu bolso a diferença. Fiz também alguns filmes por minha única e exclusiva teimosia, pagando todas as despesas. Amigos me diziam que eu “torrava” um carro zero nessa brincadeira, ao que eu respondia que entre dirigir um carro e oferecer riscos a terceiros, preferia dirigir meus filmes, que, no máximo, só poderia ferir a sensibilidade e o bom gosto de alguns críticos.
Fiz uns oito filmes, entre curtas e média-metragens, que na sua maioria ganharam prêmios… de roteiro! Desta condição, digamos anfíbia ( esquizofrênica seria um termo melhor? Mas já me defini como “paranóico e rancoroso” não vou acrescentar mais uma patologia ao meu perfil senão vão acabar me expulsando da AC), dividido entre roteirista e diretor, só consegui tirar uma lição. A diferença entre escrever filmes e e dirigir filmes é que enquanto você é pago para escrever, para dirigir você acaba gastando e muito dinheiro.
Tenho que confessar que sempre que me chamam pra escrever um roteiro eu penso como um diretor: que filme eu faria, se fosse meu o projeto ( e o dinheiro)? O que coloco no papel inevitavelmente é uma proposta de direção, disfarçada em cenas, diálogos, rubricas.
Às vezes, me vejo diante daquele dilema “tostines”: sou um diretor frustrado que escreve filmes, ou um roteirista invejoso que tenta “fazer” no papel o filme alheio? Mas a verdade é que a experiência adquirida no set, desde me atrapalhando como contra-regra, batendo claquete, fazendo planos de filmagem ( a única peça verdadeiramente de ficção num filme ), cuidado de ataques de estrelismo de atores, carregando latas de filme de um lado para outro ( acho que é o maior trabalho de um diretor de curta-metragens é esse, carregar latas ) me faz escrever melhor meus roteiros. Primeiro porque me diferencia diametralmente de um escritor cuja preocupação é a força da palavra - enquanto a cada cena que escrevo penso no tempo que o fotógrafo vai levar pra iluminar o set, na irritação dos atores esperando a hora de filmar, na quantidade de latas que alguém vai ter que carregar. Eu escrevo filmes. Sejam os meus ou o que alguém fará ( “no meu lugar”, ia acrescentar , sempre rancoroso)
Agora me preparo para dirigir meu primeiro longa ( “Histórias de Amor duram apenas 90 minutos”, selecionado no Programa de apoio ao cinema da Petrobrás ). Não por acaso, meu protagonista é um escritor frustrado. Relendo tudo que escrevi acima, acho que filmar esse longa vai ser bico.
Posted in Artigos, Paulo Halm | 6 Comments »