“Cara & Coroa”, por Ubiratan Brasil
Posted by ac on 20th December 2007
Acreditar que um roteirista, por ter domínio da história a ser filmada, é o nome ideal para dirigir a versão cinematográfica pode levar a um grande equívoco. Claro que há exceções - o gaúcho Jorge Furtado, certamente pela formação de roteirista, prefere ter tudo detalhadamente planejado para começar a rodar qualquer filme.
Tom Stoppard é outro exemplo, assim como David Mamet.
Este dirigiu honrosas versões de textos próprios, mas ele nunca se considerou um autêntico ‘auteur’, seguindo a completa personificação idealizada pelos franceses. “Faço o melhor que posso”, costuma dizer ele que, em seu ensaio “On Directing Film”, afirma de modo convincente que o autor de filmes é um visionário indescritível: “Tudo o que se precisa fazer no local da filmagem é ficar atento, seguir planos, ajudar os atores a ser simples e conservar o senso de humor. O filme é dirigido quando se executa a lista de tomadas a serem feitas.”
Seria só isso? Vejamos um exemplo a partir de “Meras Coincidências”, cujo roteiro de Hilary Henkin, tirado do romance “American Hero” de Larry Beinhardt, foi lapidado por Mamet. Os diálogos são afiados e as situações bem definidas no contexto do filme, mas, se Dustin Hoffman e Robert De Niro conseguem trabalhar à vontade com o material que têm em mãos, o mérito é principalmente do diretor Barry Levinson, um bom artesão que soube dar o ritmo adequado e um tom cômico, levemente escrachado.
Sob a direção de Mamet, no entanto, a se julgar por sua filmografia, o longa seria asséptico: ninguém se excede nos filmes de Mamet, só se atua com uma frieza entorpecida.
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Mais um exemplo: Tom Stoppard, sempre lembrado como o homem que deu vida a “Rosencrantz e Guidelstern”, foi chamado para dar mais vida ao roteiro de “Shakespeare Apaixonado”.
Ele cumpriu bem o trabalho, mas a crítica creditou ao diretor John Madden o mérito de conseguir atuações eficientes e graciosas de um elenco all-star - a Stoppard coube o louro do roteiro quase perfeito.
Não se trata de hierarquizar funções, cabendo ao diretor, por ser o comandante de uma produção, sempre o primeiro posto. Afinal, atire a primeira pedra quem duvida que “Cidadão Kane” não seria um clássico incontestável não fosse Herman Mankiewicz, o autor do roteiro? Foi ele quem propôs a Orson Welles uma “história prismática”, ou seja, contada de vários pontos de vista, sobre William Randolph Hearst, magnata e dono da então mais poderosa cadeia de jornais, revistas e rádios dos EUA. Não bastasse isso, Mankiewicz havia conhecido Hearst na intimidade e era o único capaz de escrever um roteiro com tantos pontos de contato com a vida real do milionário.
A crítica americana Pauline Kael, uma das mais importantes da imprensa dos EUA, sempre procurou destacar a importância do trabalho do roteirista no cinema, simultaneamente criticando o endeusamento do diretor como o único responsável pela concepção da “obra de arte”. E tomava “Cidadão Kane” como exemplo clássico.
E, como para toda regra há uma exceção, o dramaturgo, roteirista e diretor Harold Pinter, ganhador de um Prêmio Nobel de literatura, sempre deteve um bom controle da arte cinematográfica. Embora tivesse dirigido poucos filmes, os roteiros de Pinter permitiram aos diretores “construir imagens nas lacunas entre as palavras”, como observou David Thomson, em artigo publicado no The New York Times. Ou seja, o conhecimento do ofício tornou-o um hábil construtor de histórias, que só seriam desperdiçadas nas mãos de um completo incapaz.
O uso que Pinter faz das pausas, silêncios e imobilidade não apenas intensifica o suspense como também implora por ação física. Thomson cita o soco devastador, aparentemente imotivado, que o dono do bar veneziano de Christopher Walken desfecha no estômago de Rupert Everett no filme “Uma Estranha Passagem em Veneza”, de Paul Schrader (aliás, outro grande roteirista/cineasta).
A cena do soco está tanto no script de Pinter quanto no romance original de Ian McEwan. Mas isso desencadeou um reexame e uma releitura dos filmes de Pinter, que são quase sempre discutidos em termos de determinados temas-chave: o desejo de dominação, a subjetividade da memória, a fluidez do tempo.
Assuntos que renderam roteiros intrigantes e filmes não menos interessantes, independente de quem assinou a direção.
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