“Lina Chamie cria um céu de estrelas na selva escura”, por Carlos Augusto Calil
Posted by ac on 15th November 2007
Aparentemente uma simples história de amor entre um homem maduro desencantado e uma moça pronta para conquistar o território afetivo, “A Via Láctea”, de Lina Chamie, é um belo filme sobre a morte.
A narrativa, escrita a quatro mãos com o roteirista Aleksei Abib, é trabalhada em fragmentos e temporalidades, cuja habilidosa manipulação demonstra a enorme evolução da diretora desde seu primeiro filme, “Tônica Dominante” (2001). Outra característica marcante em “A Via Láctea” é a amorosa descoberta da cidade inóspita, em ângulos e locações improváveis. Ela se dá por impregnação poética.
O trunfo de Lina se encontra na consciência da linguagem.
Versada em poesia e música, além do cinema, lê a poesia nas suas duas vertentes: a propriamente literária, de que faz uso com grande discernimento - são poderosas as referências a Dante, Drummond, Eluard e Mário Chamie-, e a visual. Até os créditos desse filme, a cargo de Carla Caffé, constituem uma obra à parte, de apurado rigor.
Lina procura a sua tonalidade no contraste entre a música dramática de Schubert e a ironia melancólica da infância triste de Erik Satie. O espectador se compraz na beleza inefável da dança das mãos, de um olhar compartilhado, de um verso vivido, de um acorde insuspeito, de um canto remoto da cidade.
A fragilidade humana, que se apega à manifestação de afeto, à promessa amorosa, não está a salvo da contingência e do acaso, da instabilidade fugaz de instantes de improvável equilíbrio. Quando ele se rompe, interroga-se o sentido da vida. É dele que fala o poeta maior, ao defrontar-se “no meio do caminho” da sua vida.
Como o poeta, Heitor (Marco Ricca) mergulha na “selva oscura” para encontrar-se consigo mesmo. A visita ao Inferno é a mais bem realizada seqüência do filme de Lina Chamie. A fotografia de Kátia Coelho, sempre cúmplice, aqui se supera na construção de uma imagem de dilaceramento antes interior que externo. E o sacrifício da cadelinha alude à inevitável queda, ao fim do sentimento inocente.
Com “A Via Láctea”, Lina Chamie nos brinda com um filme ao mesmo tempo comovente e culto, sem afetação. O público bem o merecia.
Artigo Especial para a ”Folha de São Paulo”
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