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“Escrevendo Textos Alheios”, por Carlos Gregório

Posted by ac on 15th November 2007

gregório 2Muito cedo, em meus primeiros trabalhos como ator de cinema, percebi que o melhor diretor era aquele que simplesmente sabia o que queria. Sabia, principalmente, o que queria fazer a partir do conteúdo dos roteiros. Não coincidentemente, quando me dei conta disso, estava trabalhando com Joaquim Pedro de Andrade.  

joaquim pedro de andrade

Após uma tumultuada primeira experiência cinematográfica, tive a sorte de ser indicado para o elenco de “Os Inconfidentes”. Pouco tempo depois, fiz um dos protagonistas do filme “Guerra Conjugal”, ambos do Joaquim.

 

os inconfidentesNo primeiro, ele usava no roteiro uma curiosa mistura de material, compondo-o a partir dos “Autos da Devassa”, dos poemas dos inconfidentes e do “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles. Além disso, acrescentava alguns textos adicionais, escritos por ele próprio, que faziam as ligações entre as cenas, com uma ironia ácida típica do Joaquim. Impressionava a forma como era montada a estrutura do roteiro, a partir de material tão diverso.

O segundo filme, “Guerra Conjugal”, era uma compilação dos contos do livro homônimo de Dalton Trevisan, mas é claro que importava muito a escolha dos textos e a maneira como eram ordenados, tecendo as três linhas narrativas que compunham o filme.

Em ambos os casos, Joaquim trabalhava a partir de material alheio, que ele ia torcendo e moldando para que se ajustasse às suas intenções, sem contudo se distanciar dos originais. Havia um grande rigor intelectual na maneira com que lidava com os textos; ao mesmo tempo, a liberdade quase juvenil de seu espírito impregnava cada momento, cada cena.

guerra conjugalNo filme “Guerra Conjugal”, em que trabalhei mais intensamente sob sua direção, pude perceber claramente a relação, autoral no melhor sentido, que ele estabelecia com os originais. Os contos selecionados eram encenados fielmente, no entanto, Joaquim ia - na direção de atores, na orientação que dava à arte do filme e nas opções de mise-en-scène - adicionando camadas sutis de conteúdo.

Ao assistir ao filme, duas décadas depois, fiquei impressionado ao reconhecer claramente, no meu trabalho e no dos demais atores - magníficos, como Lima Duarte, Jofre Soares, Dirce Migliaccio, Louzadinha, para não falar da lendária Elza Gomes - as interferências que Joaquim nos sugeria, e que incorporávamos naturalmente, porque eram lógicas, precisas e instigantes. A compreensão que ele tinha do material com que estava lidando e, principalmente, do conceito com que estava trabalhando aquele material, facilitava enormemente e potencializava o nosso próprio trabalho.

Era o Joaquim, roteirista, escrevendo por cima do que já estava escrito, e o Joaquim, diretor, dando forma ao que o roteirista lhe ditava. Anos mais tarde, quando me tornei roteirista e, eventualmente, diretor, tive vontade de conversar com Joaquim sobre tudo isso. Infelizmente, já não foi possível. Tive essa vontade muitas vezes. E continuo tendo.

 

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