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“O Roteiro de Cinema”, por Luiz Carlos Merten

Posted by ac on 15th November 2007

rosebud

É uma das polêmicas mais célebres do cinema. Refere-se à autoria do mais belo filme de todos os tempos - “Cidadão Kane”, de Orson Welles, que acaba de ser referendado no posto por uma pesquisa realizada na França (e que a revista Cahiers du Cinéma divulga em sua edição de novembro). A crítica Pauline Kael dedicou em ensaio ao assunto. Parece supérfluo. Afinal, Welles não apenas dirigiu o clássico de 1941, como o restante de sua obra aponta numa direção que não deixa margem quanto aos desdobramentos de “Cidadão Kane”. Mas o Oscar de roteiro - para Herman Mankiewicz e Welles - foi um dos três que o filme recebeu na estréia, sendo os outros dois conquistados por Gregg Tolland (fotografia) e Bernard Herrmann (música).

herman manckiewiczorson welles

“Cidadão Kane” estabeleceu uma  verdadeira revolução na arte de narrar. Na verdade, ao montar seu quebra-cabeças, o filme estabelece o que virou o bê-a-bá da linguagem cinematográfica. Pode-se argumentar que Welles sistematizou o que já vinha sendo experimentado por numerosos diretores nos anos (e até décadas) anteriores, mas não é o tema deste texto. O tema é o roteiro. O que é o roteiro? Qual a sua serventia para a realização de um filme? Stanley Kubrick, um dos maiores diretores do cinema, sempre creditou grande importância ao roteiro, mas, certa vez, definindo o que era o cinema, foi enfático - o roteiro vem da literatura, a fotografia pertence ao domínio das artes visuais, a interpretação tem origem no teatro. E ele arrematou - cinema é montagem.  A palavra de Kubrick tem de ser levada em consideração, mas Steven Spielberg, na cerimônia de entrega do Oscar de 1989 disse que não se fazem bons filmes sem bons roteiros e esta também era a idéia de Billy Wilder (que começou como roteirista, após o jornalismo) - o roteiro, ele dizia, é a base de tudo. “Não se faz chocolate com estrume” (ou coisa parecida).

billy wilder

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sou dos que acreditam que o cinema é a arte da mise-en-scène, até porque grandes diretores, que admiro como tal (Gordon Douglas é um exemplo), como assalariados dos grandes estúdios de Hollywood, não tinham controle sobre o roteiro e muito menos sobre a montagem. Toda a sua arte aparece no ato de filmar, de enquadrar, de posicionar o ator no cenário para ilustrar uma visão de mundo.

Conseqüentemente, acredito que, se dermos o mesmo roteiro a dez diretores diferentes, é muito provável que tenhamos dez filmes também diferentes. Mas não sou louco de subestimar a importância de um bom roteiro. Até participei de um concurso de roteiros da Petrobrás, usando o material de base como referência para determinar - com os outros integrantes da comissão - quais os projetos que mereceriam ser contemplados com o incentivo da empresa. É curioso, mas o melhor de todos os roteiros até hoje não foi filmado e os melhores filmes feitos, daquela safra, fizeram mudanças importantes no texto de base.

Entrevistei outro dia a Lina Chamie, diretora de “A Via Láctea”, filme de que gosto muito - roteiro dela e de Aleksei Abib -, e depois até coloquei no meu texto no Caderno 2. “A Via Láctea” não é exatamente um filme narrativo, com começo, meio e fim. É muito mais sensorial, mas existe ali dentro, mesmo que não seja linear, uma história que foi muito trabalhada no roteiro que Aleksei e Lina escreveram até no exterior, com assessoria internacional, ao participar de um workshop na Espanha. Só que, para o espectador, para o leigo, o filme nem parece possuir um roteiro. Roteiro, para o grande público, é de Bráulio Mantovani para “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, que constrói uma história a partir de um livro (de Paulo Lins) com centenas de personagens envolvidos em tramas fortes, cheias de ação e violência.

alicecidade de deus 2

São diferentes concepções de roteiro e de filmes.

Nos anos 50, Roberto Rossellini, um dos grandes do neo-realismo, fez “Viagem na Itália” com base em anotações e num roteiro que foi desenvolvendo na estrada, com a dupla de atores Ingrid Bergman e George Sanders.

godardJean-Luc Godard via em “Viagem na Itália” o marco zero do cinema moderno e elogiava o que chamou de ‘desdramatização do roteiro’. Godard assimilou o método rosselliniano. Seu primeiro filme, “Acossado”, ainda possuía um roteiro - baseado numa história de François Truffaut -, mas nos que fez, a seguir, ele foi se valendo cada vez menos daquilo que os franceses chamam de ’scénario’.

glauber rocha

 

 

Assimilando lições do neo-realismo e da Nouvelle Vague, o Cinema Novo lançou-se à descoberta do Brasil atendendo ao grito de guerra do seu profeta, Glauber Rocha - ‘Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça’.

 

Radicalmente autoral, a idéia que se tem do Cinema Novo é que não conferia muita importância ao roteiro, que os diretores escreviam muitas vezes eles próprios, sozinhos. É famosa a história de que Nelson Pereira dos Santos, no set de “Vidas Secas”, prescindia do roteiro, preferindo carregar sua cópia do romance de Graciliano Ramos que, com as anotações que ia fazendo, era a verdadeira base para a sua filmagem. Grandes filmes foram feitos assim, mas isso não invalida, absolutamente, a importância nem a necessidade do roteiro. Mas a verdade é que ele surge mais associado aos projetos mais ‘industriais’, mesmo que o Brasil ainda não tenha conseguido fortalecer uma indústria.

Era comum, lá no Rio Grande do Sul, onde os filmes de Teixeirinha arrebentavam nas bilheterias e não eram ruins, tecnicamente - tinham boa fotografia -, a crítica dizer (e eu próprio dizia) que lhes faltava história e, por extensão, roteiro. É complicado. O fato de um filme ter uma boa história não significa que tenha um bom roteiro.

Peguemos o caso de Pedro Almodóvar. Ele tem uma fase, até “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos”, em que o roteiro não é o mais importante e o estilo escrachado nasce do trabalho do ator. Nos dez anos seguintes, Almodóvar descobriu o roteiro e passou a investir nele, mas escreveu (ele próprio) roteiros tão complicados que eu acredito que ninguém poderia filmar, ou que ficariam muitos ruins, se não fossem feitos por ele (”Ata-me”, “De Salto Alto”, “Kika”, o horroroso, me desculpe quem gosta, “A Flor do Meu Segredo”). Com “Tudo sobre Minha Mãe”, inicia-se uma outra fase, a do equilíbrio entre direção e roteiro, correspondendo à maturidade do autor, que até ganhou o Oscar pelo script de “Fale com Ela”. Creio não estar dizendo nada original se referendar quanto um roteiro é importante.

Conta a lenda que Alain Resnais brigava muito com Marguerite Duras durante a escritura de “Hiroshima, Meu Amor”, um dos meus filmes cults. 

hiroshima mon amour

Duras, escritora consagrada, queria fazer cinema. Resnais a incentivava a fazer literatura. Michelangelo Antonioni disse, certa vez, sabiamente - roteiros são páginas mortas que, filmadas, perdem o uso. São bases importantes, fundamentais, mas que se transformam no ato de filmagem e, depois, de montagem. Ninguém vê um filme com o roteiro na mão e se presta muita atenção na fotografia é porque o filme não é bom. O filme é mergulho audiovisual. O roteiro tem de estar lá dentro, não chamando a atenção para si mesmo.

Dizendo isso, espero não estar desautorizando o trabalho de nenhum roteirista. Acho que, de maneira geral, tem havido no cinema brasileiro uma valorização deste tipo de profissional que tem sido salutar. Não consigo imaginar os filmes de Beto Brant sem os roteiros de Marçal Aquino.

meu pé de laranja lima 2Admiro, sinceramente, Bráulio Mantovani, Marcos Bernstein - para quando o filme dele adaptado de “Meu Pé de Laranja Lima”, cujo roteiro amei? Daria um belo filme ‘japonês’ no estilo de “O Corvo Amarelo”, de Heinosuke Gosho -, Aleksei Abib, Paulo Halm.

Nenhum deles reza pela cartilha de Syd Field, com suas regrinhas - na página tal tem de ter uma reviravolta, na página tal o herói entra em crise, na não-sei-qual acontece isso e aquilo - que originaram uma história muito engraçada que me contou o Ruy Guerra. Um estudante queria saber o tamanho da letra e a distância entre as linhas (o espaço) para não colocar os clímaxes na página errada! Aristóteles estava certo ao diferenciar o historiador do dramaturgo. Um relata os fatos como se deram, o outro os reconstrói como poderiam ter sido. Em ambos os casos, o que temos é sempre uma versão possível da realidade. O roteirista escreve em função da visão do outro, o diretor.

Eu acho que o autor de Cidadão Kane é Orson Welles, mas entendo quando a Pauline Kael coloca a importância de Herman Mankiewicz na roda. Aliás, uma trivia, para terminar. Esta família Mankiewicz não dava mole. Joseph, irmão de Herman, ganhou duas vezes o Oscar de roteiro, por “Quem é Infiel?” e “A Malvada” (All about Eve).

 all about eve

Ganhou, também nas duas, o Oscar de direção, pois ele próprio realizou os filmes que escrevera. Mankiewicz ficou famoso como o cineasta da palavra. Ninguém é doido de duvidar que ele não fosse o autor de seus grandes filmes.

 

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