“Autores de Cinema”, por Carolina Kotscho
Posted by ac on 19th October 2007
Tenho um pai jornalista, uma mãe socióloga, me formei em artes plásticas e fui fazer cinema. Parece que não, mas faz sentido.
Eu adorava ouvir as histórias que o velho Kotscho contava ao voltar de cada viagem. Mas achava muito melhor escutar sua voz e ver os seus olhos brilhando do que ler o texto escrito, recortado, espremido na página do jornal. Com minha mãe aprendi a observar e entender o ser humano. A decifrar personagens.
Fugi do jornalismo e das pesquisas de opinião. Estudei desenho, pintura, fotografia, teatro. E foi no cinema que consegui juntar tudo isso: construir personagens e contar histórias com imagens.
Com 17 anos de idade comecei a trabalhar em uma pequena produtora de vídeos e filmes. A empresa cresceu e tive a oportunidade de fazer muito de tudo: criar, viabilizar, produzir, editar, dirigir, distribuir.
Mas um projeto de cinema só começa quando uma idéia vai para o papel. E essa sempre foi, para mim, a parte mais importante - e prazerosa - do processo: escrever.
Eu tinha sempre muitas idéias na cabeça e aprendi cedo que uma idéia só vale quando ganha forma. Que a atividade do autor está no ato de fazer, não de pensar. Quantas pessoas pensaram em pintar flores e quantas fizeram quadros como Van Gogh?
Em junho de 2002, trabalhando no escritório de São Paulo da Conspiração Filmes, fui por acaso com Patrícia Andrade fazer a primeira entrevista com Zezé di Camargo e seu irmão Luciano. Alguém havia dito que a vida da dupla dava um filme. Vimos que dava.
Mas em uma conversa muito especial que tive um tempo depois com o Dr. Drauzio Varella, ele me disse: “Carolina, qualquer vida dá um livro. Ou um filme. Mas alguém tem que saber escrever essa história. Colocar uma palavra depois da outra”.
É verdade. Qualquer pessoa tem uma história de amor, um conflito, uma vitória para lembrar. Qualquer tema, qualquer guerra, qualquer sentimento ou teoria dá um filme. Mas alguém tem que saber contar.
“2 Filhos de Francisco” foi meu primeiro trabalho como roteirista de um longa-metragem de ficção. Eu tinha 26 anos quando entrei no projeto e não tinha a menor idéia de como a coisa funcionava. Mas me apaixonei por aquela história e por aqueles personagens.
Syd Field, Robert McKee, Christopher Vogler. Busquei todos os “manuais de auto-ajuda do roteiro”. Mas se técnicas garantissem bons quadros e fórmulas garantissem bons filmes, ninguém errava.
O que faz um filme ser especial? Certamente não é só a escolha de um bom tema e a capacidade de aplicar regras. Busquei todos os roteiros disponíveis e vi e revi muitos filmes com outros olhos. O Dr. Drauzio tinha razão. Alguém, com seu talento e sensibilidade, tem que colocar uma palavra, uma ação, uma cena depois da outra. Esse é o exercício do autor no cinema.
Mas ser roteirista não é só organizar palavras. É uma profissão. É uma das principais atividades da indústria cinematográfica. É a partir de um roteiro que um projeto passa a existir, pode ser avaliado, orçado, viabilizado, produzido.
Muita gente neste país, como eu, já sabia fazer roteiros. Em geral, aprendemos fazendo. Mas ninguém sabia explicar direito o que era ser roteirista e não havia para quem perguntar. Foi assim que nasceu nossa associação. De um encontro, de uma necessidade que alguns autores de cinema do Brasil sentiram de se conhecer e profissionalizar.
Ao contrário do que muita gente pensa quando se fala em “associação de classe”, não queremos brigar com ninguém, organizar greves ou passeatas. Queremos dividir experiências, profissionalizar os processos e fazer cada vez melhor o nosso trabalho.
E se você gosta de contar histórias, sabe organizar palavras e já chegou a pensar em ser roteirista, não vai enfrentar as mesmas dificuldades que encontrei no começo. Agora você tem com quem falar.
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