Posted by ac on 18th October 2007
Então, o cinema ainda tem um problema… que a literatura eu dependo… como eu escrevo à mão, sou tão arcaico que eu escrevo à mão, em caderno… eu dependeria apenas de uma folha de papel pra escrever. Em cinema você depende de muita gente. O cinema necessariamente é coletivo.

O correto seria extinguir a assinatura “um filme de”. Eu defendo a assinatura: “dirigido por”, e “escrito por” na mesma cartela. Ambos, diretor e escritor de cinema, são autores do filme.
“Desfrutar de uma coisa com exclusividade significa em geral excluir a si mesmo do verdadeiro desfrute”.
H.D. Thoreau

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Posted by ac on 18th October 2007

Como é essa história da diferença de criação, de criar a sua própria história a partir de uma história já existente, transformar isso num roteiro?


O que aconteceu é que a minha “incompetência” como escritor me jogou no cinema, porque em 94, eu comecei a escrever uma novela que não deu pra terminar - ela ficou pela metade - chamada “Os Matadores”. E o Beto Brant resolveu filmar isso aí. Então, teve um momento que eu, por molecagem, tava conversando com ele, eu disse : “bom, se eu tivesse escrito o livro até o fim, eu teria contado isso, isso e aquilo”. Ele disse : “é isso que eu preciso”. Então, eu e minha boca grande deu trabalho pra mim, que ele disse: “me ajuda a dar um tapa no roteiro”. O tapa no roteiro levou 70 dias. Reescrevemos o roteiro inteiro em 70 dias. Eu fui para o Paraguai com o Beto pra fazer as locações e me envolvi com o cinema brasileiro.
Então, hoje eu posso dizer rigorosamente, como dizem alguns: eu mexo com cinema.
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Posted by ac on 18th October 2007
Essa história de mexer com cinema é muito complicada porque, enquanto você vai partir para a adaptação das suas histórias, a minha experiência sempre foi a seguinte, eu sempre fui muito severo neste sentido. Pra mim a experiência tá encerrada quando o livro tá pronto. É difícil, às vezes, compreender. Vejam vocês. Você publica um livro…. tem n leituras. Cada um enxerga um personagem com uma cara, e o diretor vai ter que se valer de alguém com carne e osso pra fazer aquilo. Então, você vai dizer: “mas o personagem não é assim”. O seu personagem não é assim. Provavelmente para o seu vizinho não seja assim também. Mas, para um outro vizinho pode ser. Então, você tá lidando com um número de variáveis muito grande.



Se você tem problemas com uma obra, se você gosta muito de uma obra, eu acho assim: não vá vê-lo no cinema. Se ela é sua obra fetiche, não vá vê-la no cinema porque fatalmente você vai dizer: “o livro é melhor”.
E o livro vai ser sempre outro lugar, onde você entra, você vê o filme na sua imaginação e, quando a gente vai materializar isso, a gente precisa de pessoas de carne e osso, a gente precisa de locação. É impossível fazer o filme de cada pessoa. O que o diretor faz é o que de perto mais agrada a ele. Digo ‘mais perto’ porque ele também está sujeito a uma série de injunções, porque é coletivo, não depende só dele. Depende do fotógrafo, depende dos autores, do maquiador.
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Posted by ac on 18th October 2007

Na realidade, existe um grau mínimo de fidelidade que vocês acham que tem que ter com a obra original, ou não tem que se preocupar com isso ? Usa só o título e o resto inventa ? O que vocês acham ?
Eu acho que você é incapaz de ser fiel a um livro como você é incapaz de ser fiel a um fato real, baseado em fatos reais. Sempre também é uma leitura. Então, pra mim, o limite é ter uma leitura e ser fiel a ela. Se você nem sequer tem a leitura, você pode ser fiel às páginas do livro e ainda assim você vai estar traindo, porque não tem ninguém por trás dessa adaptação.
Eu não acredito em fidelidade nesse sentido. Eu acho curioso porque o pessoal vai muito ao cinema e sai do filme dizendo : “o livro era melhor”. O pessoal vai ver teatro baseado em literatura e ninguém sai da peça dizendo que o livro era melhor. É só no cinema que isso acontece. Uma coisa curiosa…
Posted in David França Mendes, Marçal Aquino, Sob o Luar de Paraty (Arriaga e os brasileiros na Flip) | No Comments »
Posted by ac on 17th October 2007

O Sérgio Santana, eu falei pra ele: Sérgio, mire-se no exemplo do Stephen King. O Stephen King teve um filme adaptado pelo grande Kubrick; um filme chamado “O Iluminado”. Curiosamente, acho que o único sujeito no planeta que não gostou do filme foi o Stephen King. Então, ele resolveu fazer o filme dele; ele refilmou “O Iluminado”. E é terrível! E eu li uma entrevista em que ele diz que não gostou muito também (porque a atriz falhou com ele e tal). Eu acho que essa coisa da fidelidade não deve ser a preocupação.
Aqui no Brasil, na história recente do cinema, só existe uma adaptação que pode ser chamada de adaptação literária, pelo caráter que ela tem (mas ela trai também) : é o ”Lavoura Arcaica”, do Luis Fernando Carvalho, em cima da obra do Raduan Nassar.
Primeiro que ele isolou o elenco numa cidade de Minas durante três meses. Deu um livro para cada ator. Nunca botou no papel da forma que a gente tá habituado a fazer, tecnicamente falando. Entendo o que o Luis Fernando fez com “Lavoura”, e acho uma façanha cinematográfica. Tem gente que bota reparo no filme. Eu acho assim: é uma daquelas obras únicas, que fica justamente para comprovar como exceção àquilo que nós estamos falando que é a regra. Que não é possível essa fidelidade quando você faz essa transposição de linguagem. Mas aquilo é tão sui generis a partir da própria adaptação, que nem roteiro teve, que não serve como… na verdade confirma a regra, que é assim: você não pode ser fiel se você vai fazer uma coisa que vai mudar a linguagem.
Então, eu não acredito em fidelidade no cinema.
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