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“Uma carona pela vida de uma família perturbadora”, por Di Moretti

Posted by ac on 12th August 2008

Acho que o melhor relato sobre a criação do roteiro de “Nossa Vida Não Cabe Num Opala” não é falar de sua pesquisa, realização ou mesmo de seu lançamento, agora no dia 15 de agosto. Tenho para comigo que o melhor testemunho que posso dar é sobre o processo de adaptação desta obra.

Comecei minha carreira de roteirista de ficção fazendo justamente uma adaptação cinematográfica, “Latitude Zero”, baseado no texto teatral “As coisas ruins da nossa cabeça” de Fernando Bonassi. Esta primeira experiência foi bastante satisfatória e enriquecedora, tanto na relação com o autor original, como no resultado final do filme. Já sobre meu mais recente trabalho de adaptação não posso dizer o mesmo, ao menos com relação ao primeiro quesito. O roteiro de “Nossa Vida Não Cabe Num Opala” é uma LIVRE adaptação da peça “Nossa vida não vale um Chevrolet”. Muito se disse sobre esta “conturbada” relação com o autor original, mas fugindo da tábua rasa das acusações estéreis do mesmo em relação ao meu trabalho, acho que devo falar sobre o roteiro. 

Fui contratado para reescrever um roteiro cinematográfico exatamente porque o tratamento anterior, escrito pelo autor original, não estava satisfatório, era preguiçoso. Esta não é uma avaliação minha, mas do próprio produtor e diretor do filme, Reinaldo Pinheiro. Tentei entrar em contato com o autor original, que nunca quis me receber e infantilmente começou a me atacar através da imprensa e de seu blog. Sempre disse que o depositário destas reclamações não deveria ser eu, mas sim o diretor/produtor, que, aliás, estava bastante satisfeito com a versão do meu roteiro.

Sei que é complicado o autor ter desapego em relação à sua obra. Como roteirista faço isso toda hora, goste ou não do resultado final do filme. Este é o processo natural e maduro das coisas. Acho também que no momento que o autor original “negociou” sua obra, ele deveria estar preparado mentalmente para que esta seja recriada, transformada, conforme as necessidades especificas do meio para o qual ela será adaptada, no caso, um longa-metragem de cinema. Um roteirista que escreve um roteiro adaptado deve ter sempre um “desrespeito saudável” pela obra adaptada. Um livro é um livro, uma peça e uma peça, um filme é um filme… Bem, deixando polêmicas vazias de lado, vamos ao roteiro de “Nossa Vida Não Cabe Num Opala”.

A família Castilho, protagonista do filme, vive à margem da sociedade e da legalidade, e tem que dar conta de uma herança maldita deixada pelo pai, Oswaldão, famoso ladrão de carros do bairro, que tinha como peculiaridade só roubar Opalas. Oswaldão bate as botas, mas seu fantasma ainda visita à dura realidade de seus filhos. Na verdade, o velho ganhou uma prorrogação, uma hora extra para voltar e ter uma última conversa com cada um deles. A conversa que nunca teve em vida, pois a rua era seu habitat natural e os carros seu único prazer.

Quando resolve fazer estas visitinhas inesperadas, Oswaldão encontra cada um dos seus quatro filhos com seus próprios dilemas. Monk, o mais velho e mais inteligente deles, quer abandonar a “profissão“ herdada do pai, mas a bebida e a responsabilidade de ter que tomar conta dos irmãos o faz rodar em círculos.  Lupa, o filho do meio, que também teve o amor paterno dividido ao meio, julga-se o mais esperto deles, mas é naturalmente desprovido de qualquer senso de concretude, a não ser roubar carros e juntar uma grana para sair daquele lugar e criar seu filho pequeno. Magali é uma sensível garota que enxerga na música a saída para seus problemas, mas também não consegue se livrar do destino familiar e também do assédio de um antigo sócio de seu pai, Gomes, empresário de boxe e receptador dos carros roubados pela família. Slide, o caçula, faz o caminho inverso, mesmo vivendo nesta família problemática, se orgulha da profissão do pai e faz tudo para abraçá-la, mas como não tem talento para o roubo de Opalas resolve se dedicar ao boxe.

Como se pode ver os Castilhos não são uma família normal e convencional. Eles têm que sobreviver aos fantasmas do passado. O pai relapso e marginal, depois de morto, resolve acertar contas com seus filhos; não para indicar-lhes o caminho da sabedoria, mas sim para conseguir um tão almejado perdão. Estes personagens são metáforas deles mesmos; emblemas de razão/emoção, moralidade/imoralidade, desejo/fantasia, legalidade/ilegalidade. Seres humanos cercados por um mundo de desesperanças e reveses, que lutam pela sobrevivência, tentando resistir à contravenção. Mas, o destino desta família é um beco sem saída onde absurdo, comicidade e tragédia convivem lado a lado.

Na hora de escrever este roteiro pensei exatamente nisso, quatro linhas narrativas (filhos) que funcionassem independentes, isoladas, mas que no todo representassem uma única célula dramática fadada ao insucesso (família). Cada um deles tem motivações especificas e particulares, mas com um objetivo único, escapar daquela situação. Trajetórias erráticas e caóticas que levam todos para um final comum, sem redenção.

Resolvi escrever o roteiro fazendo opções equidistantes da narrativa tradicional. Os personagens são apresentados em estado puro e no meio de seu processo de deterioração. Alguns, na verdade, são apenas projeções idealizadas, como Silvia e a Mãe, que em suas rápidas e pontuais aparições delineiam e antevem a tragédia que se abaterá sobre aquela família. Apesar do final surpreendente e contundente do filme, achei que deveria conduzi-lo de forma suave, bem humorada, explorando as mazelas e incoerências dos próprios personagens.

Enfim, apesar do tumultuado processo, principalmente em relação ao autor original, o roteiro de “Nossa Vida Não Cabe Num Opala” me permitiu mergulhar num universo marginal, atraente e incomum, que poucas vezes tive a oportunidade de me deparar em outros trabalhos.

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“Ser e Estar”, por Di Moretti

Posted by ac on 16th October 2007

abertura: di moretti

Por que alguém em sã consciência gostaria de trabalhar como roteirista no cinema brasileiro? Não se sabe exatamente o que ele faz; não se sabe exatamente quanto ele ganha… Quando o filme vai bem, a mídia o ignora; quando vai mal, ela lembra sempre que o problema é o roteiro… Ou seja, como numa débil estrutura narrativa, nosso trabalho parece eternamente condenado ao 2.º ato, conflito e obstáculos.

Flashback. Sem demérito aos meus pais, testemunho aqui orgulhosamente que fui criado pelo cinema. Vi a morte pela 1.ª vez nas lágrimas de Bambi. Vivi a violência na curra de Kubrick, com bolinhas negras da censura perseguindo a “perseguida”. Fui à guerra com Dalton Trumbo… Ou seja, as luzes do cinema se acendiam eu me sentia mais amadurecido, inconformado e irremediavelmente atraído.

Quando me dei conta já escrevia pequenos textos para conquistar corações menos avisados, para registrar pequenos delitos morais, para dar vazão a desejos inconfessos. Estas foram algumas qualidades e defeitos que o cinema fez crescer em mim e que nunca mais me largaram. Por isso tenho esse sentimento de gratidão, maior ainda vendo a possibilidade de participar dele, só que desta vez do outro lado, contando histórias, sensibilizando novos incautos como eu. Sei que não é uma história original, mas ela reflete toda esta caminhada até me tornar um roteirista “que pretende ser profissional” no cinema brasileiro. Aí que reside o problema e a premissa da primeira frase.

Hoje, depois de um tenebroso e escasso passado, estamos conseguindo produzir filmes, mas ainda é uma conta que não fecha. Fazemos, em média, 100 filmes por ano; mas temos, no máximo, 50 roteiristas profissionais, pelo menos que se podem chamar assim. Precisamos urgentemente acertar esta conta e, para isso, é vital que nos revelemos e informemos o público, a mídia e o próprio meio cinematográfico de nossa vital existência. Só com bons roteiros conseguiremos bons filmes. Só com bons roteiristas, trabalhando em condições dignas, teremos bons roteiros.

Um ano atrás, numa mesa de bar, uma pequena (pequena mesmo) roda de roteiristas jogava conversa fora. Uma delas escapou de ser esquecida pelo tempo. Ao invés de reclamarmos de “la mala suerte”, resolvemos nos juntar, para entender o que fazemos, como fazemos e como o podemos fazer melhor… Surgiu assim a Autores de Cinema, que além de tudo, até pelo nome, defende o justo espaço do trabalho do roteirista dentro do filme e dentro do cinema brasileiro.

Este site que está sendo lançado agora quer exatamente isso, disponibilizar informações, sentimentos, reivindicações, ações, histórias, exemplos que nos ajudem não só a melhorar nosso trabalho, como instar a chama do interesse na formação de novos roteiristas. Voltando a pergunta do inicio… Gosto de ser roteirista porque posso contar esta minha história, posso contar a história de meus amigos, de meu povo, de meu vizinho, que quem sabe não pensa ser roteirista.

RUÍDO de campainha. DETALHE de um dedo masculino apertando o botão.

Di (off)

Ô de casa, tem alguém aí?

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