Posted by ac on 18th October 2007

Por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher. Por trás de um príncipe fardado, apaixonado e em evidência há sempre um Cyrano narigudo que escreve os seus discursos e cartas de amor. “Por que é que um ator, que trabalhou três meses em um filme, deve fazer sua divulgação e não um escritor que trabalhou, às vezes, por três anos na história?”, considera Arriaga. E olha que ele não é francês. Nem narigudo.
(Em relação ao nariz, Arriaga perdeu o olfalto no passado em um briga de rua, experiência espelhada em alguns de seus personagens, como a adolescente japonesa, de “Babel”).
Por trás de um homem triste, há sempre uma mulher feliz.
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Posted by ac on 18th October 2007

“Ele oculta seu brilho e apesar disso ainda resplandece”. Após Cannes e o Oscar, Arriaga escreve agora inclusive para a China. Mas o texto do hexagrama Ming I, do I-Ching, descreve bem a condição do trabalho de roteirista no México. E no Brasil?


O “Caminho das Nuvens”, acho que é o filme mais interessante que eu fiz… e outros projetos que eu tenho com o Vicente Amorim, que é o diretor do “Caminho das Nuvens”; eu sei que a minha contribuição ali é muito grande. Eu não chego a dizer que é maior do que a dele. Foi o Vicente que me chamou pra história. Essa família que veio da Paraiba de bicicleta… eu quero fazer um filme sobre essa família…quero que tenha um tom mais ou menos assim. Partiu dele! O cara dirigiu o roteiro, como dirigiu os atores, o fotógrafo, todo mundo.

A partir daí eu embuti ali uma série de coisas minhas: o garoto que é o filho mais velho daquela família é…embora seja um adolescente, nordestino, subverbal, quase analfabeto. E eu sou muito diferente disso. Ele tem coisas da minha adolescência. Aquela relação daquela família tem coisas da relação da minha família. Agora, eu não chegaria a dizer que esse filme é mais meu do que dele. Por outro lado, eu não acho que seja tão mais dele do que meu. Porque, o que acontece? Dentro da dinâmica do cinema, desde a Teoria dos Autores etc. e tal… é que é positivamente, exclusivamente do diretor. Eu não chego a dizer que o roteirista é mais autor ou tão autor quanto o diretor, apenas não acho que seja para ser tão desconsiderado quanto é.

Independente do processo, independente do que tá ali, e a desproporção entre o que o roteirista ganha, de atenção, de dinheiro, de dividendos na carreira dele etc., e o que o diretor ganha é uma coisa desproporcional ao tamanho da contribuição que a gente faz. No Brasil, por exemplo, a gente ganha efetivamente menos em dinheiro do que o diretor de fotografia. E sem desrespeito nenhum à pessoa que fotografa o filme. Eu acho que a contribuição de quem inventa os personagens, o universo ficcional, a estrutura da história e tudo aquilo; no mínimo não é menor.
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Posted by ac on 18th October 2007
“Existe aqui um homem capaz. Ele é semelhante a um poço que foi limpo, e de cujas águas se pode beber. No entanto não está sendo utilizado. Essa é a tristeza daqueles que o conhecem. Seria desejável que o príncipe fosse posto a par do que ocorre, pois isso traria boa fortuna a todos”.
Hexagrama Ching/O Poço.
I-CHING

Nós não escrevemos um “guión” (una “guia”) ou um roteiro (uma “rota”). Shakespeare escreveu uma rota? Beethoven escreveu uma “guia”? Nós criamos uma história, somos autores. No México mudamos, por isso, a nomenclatura: extinguimos oficialmente o nome “guionista” (roteirista). Somos “escritores de cine”. Ou autores de cinema.
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Posted by ac on 18th October 2007
Então, o cinema ainda tem um problema… que a literatura eu dependo… como eu escrevo à mão, sou tão arcaico que eu escrevo à mão, em caderno… eu dependeria apenas de uma folha de papel pra escrever. Em cinema você depende de muita gente. O cinema necessariamente é coletivo.

O correto seria extinguir a assinatura “um filme de”. Eu defendo a assinatura: “dirigido por”, e “escrito por” na mesma cartela. Ambos, diretor e escritor de cinema, são autores do filme.
“Desfrutar de uma coisa com exclusividade significa em geral excluir a si mesmo do verdadeiro desfrute”.
H.D. Thoreau

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