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Archive for the 'David França Mendes' Category

“Script Doctor”, por David França Mendes

Posted by ac on 12th May 2008

“Script doctor”. A expressão de cara provoca desconfiança, e não apenas por ser mais uma em inglês entre as tantas desnecessárias, como “delivery” ou “sale”, pois mesmo traduzida não presta: “doutor de roteiro”. Francamente. No entanto, a prática que a expressão nomeia está longe de ser besta. Trata-se, simplesmente, da prática de ler profissionalmente um roteiro e apresentar, de forma organizada, uma avaliação dos seus pontos fortes e fracos. Isso, claro, do ponto-de-vista do profissional convidado a fazer a tal leitura. O diagnóstico, portanto, não é nunca definitivo.

É impressionante como, para quem vê de fora os processos de realização do cinema, tudo parece mais complicado do que realmente é. Quase todo leigo que ouve falar do termo “script doctor” imagina que quando alguém é chamado a fazer esse papel, no curso da realização de um filme, é porque o roteiro está um lixo e alguém tem que consertar aquilo. Mais: imagina também que é pelos mais torpes motivos comerciais que essa intervenção é feita e por último, mas não menos importante, acha que o autor do roteiro que vai ser “doctored” encara tudo isso como uma mutilação perversa e a mais abjeta das humilhações.

Devo então ser masoquista, pois recentemente tomei a iniciativa de recomendar um “doctoring” para um roteiro meu. O que mais, se não uma compulsiva atração pela dor e a humilhação, me levaria a pegar um roteiro que escrevi, no qual trabalhei por alguns anos e do qual gosto, e recomendar ao diretor e produtor que me contratou para escrevê-lo que o encaminhasse a um, oh!, script doctor? Não, o masoquismo não figura entre as minhas perversões: sugeri, e o diretor topou, que o roteiro fosse mandado a um script doctor porque, depois de escrever um certo número de tratamentos dele, comecei a achar que sentia dificuldade em vê-lo com o necessário distanciamento para aprimorá-lo e afinal dá-lo por pronto. O diretor, que sentia também a mesma necessidade, topou e, nesse momento, há um bom roteirista trabalhando no caso.

Aí está, então, um dos principais usos de um script doctor, e que não tem nada a ver com mutilações de autoria ou bajulação do mercado: permitir a um roteirista ver o seu trabalho com os olhos de um outro. Um outro que não é um amigo palpiteiro mas um profissional tão ou mais qualificado quanto o autor do roteiro, com a vantagem de não estar envolvido na sua feitura, não ter ralado meses ou mesmo anos a fio com aqueles personagens, cenas, diálogos.

Se agora sou paciente, também já fui o doutor. E se não sou masoquista do lado de cá, também não sou sádico, do lado de lá. Fiz e faço script doctoring para roteiros e argumentos tanto de colegas experientes, às vezes mais do que eu, quanto para iniciantes. Não o fiz muitas vezes, mas faço quando há demanda e quanto tenho disponibilidade, pois fazê-lo direito dá trabalho. Não há um regra de mercado para como o “doctoring” deve ser feito, e não sei dizer como os colegas o fazem. O importante é ler com extrema atenção, anotando cuidadosamente todas as dúvidas e críticas sobre estrutura da trama, personagens, diálogos e, em alguns casos, até mesmo redação.

Essas anotações não são todas apresentadas ao “paciente”. Eu as uso para me orientar dentro do material, na maioria das vezes para fazer perguntas a quem me contratou. É preciso perguntar bastante, e escutar bastante, para não se cair na tentação de reescrever, de propor idéias, de se envolver na criação. Não é isso que se espera e não é isso que se paga. O que se espera é diagnóstico, mais do que tratamento. E o diagnóstico tem que levar em conta o desejo do paciente: o que se pretende com esse filme? Não se aplica os mesmos exames em todos os casos.

Na prática, o que normalmente faço é pedir para fazer uma primeira leitura do roteiro sem saber nada das intenções de ninguém. Depois disso, fazemos uma reunião onde apresento a leitura que fiz, isto é, o que suponho que os autores pretendiam. Só isso já costuma ser revelador, pois muitas vezes a gente acha que o roteiro está caminhando numa direção e não está. Depois eu escuto. Escuto o que os autores esperam do filme, por quais processos passaram, idéias descartadas e por quais razões, idéias que entraram no texto final e suas razões. Faço então uma segunda leitura, levando em consideração tudo isso, todas as intenções. Preparo um relatório e marco uma reunião. Nessa reunião, apresento o meu diagnóstico, inclusive com as dúvidas que eu eventualmente tenha (e certezas, quando as há).

E normalmente é isso. Nada demais. Um processo profissional que, como qualquer outro, pode ser bem feito ou mal feito. Como a preparação de atores, por exemplo. Um dos muitos processos coletivos do cinema. Restaria agora inventar um termo melhor que “script doctor”. Aguardo sugestões.

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caminho das nuvens

Posted by ac on 18th October 2007

“Ele oculta seu brilho e apesar disso ainda  resplandece”. Após Cannes e o Oscar, Arriaga escreve agora inclusive para a China. Mas o texto do hexagrama Ming I, do I-Ching, descreve bem a condição do trabalho de roteirista no México. E no Brasil?

 

O “Caminho das Nuvens”, acho que é o filme mais interessante que eu fiz… e outros projetos que eu tenho com o Vicente Amorim, que é o diretor do “Caminho das Nuvens”; eu sei que a minha contribuição ali é muito grande. Eu não chego a dizer que é maior do que a dele. Foi o Vicente que me chamou pra história. Essa família que veio da Paraiba de bicicleta… eu quero fazer um filme sobre essa família…quero que tenha um tom mais ou menos assim. Partiu dele! O cara dirigiu o roteiro, como dirigiu os atores, o fotógrafo, todo mundo.

 

 

  A partir daí eu embuti ali uma série de coisas minhas: o garoto que é o filho mais velho daquela família é…embora seja um adolescente, nordestino, subverbal, quase analfabeto. E eu sou muito diferente disso. Ele tem coisas da minha adolescência. Aquela relação daquela família tem coisas da relação da minha família. Agora, eu não chegaria a dizer que esse filme é mais meu do que dele. Por outro lado, eu não acho que seja tão mais dele do que meu. Porque, o que acontece? Dentro da dinâmica do cinema, desde a Teoria dos Autores etc. e tal… é que é positivamente, exclusivamente do diretor. Eu não chego a dizer que o roteirista é mais autor ou tão autor quanto o diretor, apenas não acho que seja para ser tão desconsiderado quanto é.

 

 

 Independente do processo, independente do que tá ali, e a desproporção entre o que o roteirista ganha, de atenção, de dinheiro, de dividendos na carreira dele etc., e o que o diretor ganha é uma coisa desproporcional ao tamanho da contribuição que a gente faz. No Brasil, por exemplo, a gente ganha efetivamente menos em dinheiro do que o diretor de fotografia. E sem desrespeito nenhum à pessoa que fotografa o filme. Eu acho que a contribuição de quem inventa os personagens, o universo ficcional, a estrutura da história e tudo aquilo; no mínimo não é menor.

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nossa vida não cabe num opala

Posted by ac on 18th October 2007

O grande abacaxi é o seguinte: você precisa ter uma leitura daquilo. Você leu aquele livro e diz: esse livro é sobre isso. A partir do momento que você sabe: “aquele livro é sobre isso”, é uma leitura que você pode fazer como leitor. Cada leitor do “Crime e Castigo” fez isso; só não fez um produto depois. Então, o que você faz é o quê ? Uma adaptação é filmar uma leitura de um livro. Você pensou aquilo, leu aquilo, pensou alguma coisa e vai construir uma narrativa que seja capaz de contar aos outros o que é aquela sua leitura.

           

Eu cheguei a essa conclusão numa sessão de análise - a minha analista tá por aí, aqui em Paraty- eu contei pra ela de um conto que eu tinha lido e falei que eu tinha vontade de adaptar. Ela perguntou : “porque que você tem vontade de adaptar ?” Nunca tinha me ocorrido qual o motivo de adaptar que não seja o mais evidente, quando é um ‘best seller’ ou uma coisa assim.

Então, eu pensei que eu tenho vontade de adaptar porque eu quero compartilhar essa leitura que eu tive com mais gente do que meramente meus amigos. Eu quero compartilhar com mais gente.

   

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o espelho (ou um romace de geração)

Posted by ac on 18th October 2007

 

Todos os filmes do Sérgio Sant’Anna têm uma reflexão sobre a própria arte, a própria literatura. No caso do “Romance de Geração” tem uma reflexão sobre o teatro. Então, esses dois personagens que, no livro são só aqueles dois, eles agem como se estivessem numa peça de teatro; falam com a platéia. Eu pensei, se eu tentar fazer isso no cinema literalmente…”ser fiel” ao Sérgio, ser fiel à letra que tá ali, eu não vou ser fiel, porque simplesmente colocar dois atores no palco falando com a platéia dentro de um filme, não é metalinguístico dentro do cinema.

Então, o que eu fiz foi criar uma outra relação; eu eliminei essa questão deles falarem com a platéia e criei outros mecanismos, como por exemplo: são três atrizes fazendo o mesmo papel. O cara tá falando com uma; quando ela sai vem outra.  Mas, é uma leitura. Uma pessoa pode chegar e achar: “não me interessa a questão metalinguística do Sérgio Sant’Anna. Interessa a relação, a sedução entre a jornalista e o escritor”. Então, ótimo.

Essa pessoa vai fazer uma outra leitura, diferente da que eu fiz. É isso aí.   

                            acesse o blog do filme: http://umromancedegeracao.wordpress

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cão sem dono

Posted by ac on 18th October 2007

Na realidade, existe um grau mínimo de fidelidade que vocês acham que tem que ter com a obra original, ou não tem que se preocupar com isso ? Usa só o título e o resto inventa ? O que vocês acham ?

Eu acho que você é incapaz de ser fiel a um livro como você é incapaz de ser fiel a um fato real, baseado em fatos reais. Sempre também é uma leitura. Então, pra mim, o limite é ter uma leitura e ser fiel a ela. Se você nem sequer tem a leitura, você pode ser fiel às páginas do livro e ainda assim você vai estar traindo, porque não tem ninguém por trás dessa adaptação.

Eu não acredito em fidelidade nesse sentido. Eu acho curioso porque o pessoal vai muito ao cinema e sai do filme dizendo : “o livro era melhor”. O pessoal vai ver teatro baseado em literatura e ninguém sai da peça dizendo que o livro era melhor. É só no cinema que isso acontece. Uma coisa curiosa…

          

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